Treino do Sol

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Composição com de recortes de imagens - internet - 16-02-17.


Treino do Sol

Amigos!

O sol de meio dia derrama labaredas de luz sobre mim, que saí atrasado para correr. É domingo nas ruas da Penha, mas o calor aprisionou as pessoas em casa. Poucos carros competem comigo, no asfalto, e eu até posso me afastar um pouco mais do meio-fio. Minha imagem de corredor aleatório percorre as vitrines. Sigo, em forma de reflexo, de loja em loja. Percorro os blindexes das estações do BRT.  Subo o viaduto da Lobo Junior. Vislumbro a igreja da Penha, lá no alto, e um avião que vai pousar no Santos Dumont.  Ao meu lado o hospital Getúlio Vargas lança um olhar amarelado e eu agradeço aos céus esse momento... Estou vivo, com saúde, e posso correr até Copacabana.

Continuo meu trajeto passando em frente ao antigo Curtume Carioca. Meu couro expele uma salmoura de suor e protetor solar, que desce pela testa e invade os olhos. Tento secar o rosto com a camiseta, sem muito sucesso, e continuo... Subo rua, desço rua, faço curvas e deparo com o Campo do Olaria. O clube que já-teve-seus-dias-de-glória no campeonato carioca que também já-teve-seus-dias-de-glória. Lembro do meu vizinho que tinha adesivo do Olaria em sua vemaguete. Lembro do cracaço Afonsinho, dominando o meio campo, de uniforme branco com a tradicional faixa azul cortando o peito. Volto, logo, ao presente e percebo que minha garrafinha de água secou. Uma padaria surge, feito oásis: é hora de me hidratar.

Minha pulseirinha tecnológica vibra, em Ramos, anunciando que o nono quilometro já foi percorrido. Àquela altura, é possível continuar no "piloto automático", quando eu até esqueço que estou correndo. Só não posso descuidar e tropeçar nas calçadas irregulares da Rua Barreiros. De repente, dou conta de que não vi nenhuma viatura da polícia nas ruas, até ali. Fico preocupado: é época de ameaça de greve dos policiais militares, que não estão recebendo salário... Então penso: "Se o bandido aparecer, já estou correndo, basta acelerar!"

Uma placa imaginária de 11 km foi fincada na Avenida Brasil, logo na saída da Avenida Paris, em Bonsucesso. Meio dia se aproxima e meu ritmo está pouco acima de 5 min por quilômetro (5X1). Dessa forma margeio a Fundação Oswaldo Cruz e a Refinaria de Manguinhos. É fácil correr naquelas calçadas desertas. Encaro um trecho mais difícil entre Fábrica de Sabão Português e o Cemitério do Caju. Enfurno-me sob o elevado que vem da Ponte e termina na Rodoviária. "A Perimetral foi apagada daqui" - penso, ao parar num boteco e comprar água. Confiro meu ritmo médio: 5:05 min ao longo de 18 km. 

Tudo mudou, ali, na Avenida Rodrigues Alves. Agora, é possível avistar o céu azul no lugar da turva cobertura de concreto, que veio a baixo. Um calçadão de granito escovado margeia a estrada que se aproveita para lagartear ao sol. Escombros de alguns armazéns demolidos, no entanto, ainda não foram recuperados. Mesmo assim, nada faz lembrar a degradação do local, tempos atrás. Passam 1,5 km até a estrada mergulhar no Túnel Rio450. À flor do solo surge o Boulervad Olímpico, o novo cartão postal do Rio. Ali, o antigo Moinho Fluminense se transformou no moderno AquaRio - maior aquário da América do Sul, repleto de crianças. São mais 1,5 km, às margens dos trilhos do VLT, até chegar no Museu do Amanhã. Nesse percurso há turistas desembarcando dos cruzeiros. Eles são recebidos pelo imenso painel Etnias, de Eduardo Kobra, que interpreta a luz do sol em cores vibrantes. Os antigos armazéns reformados promovem eventos, atraindo mais movimento ao local. Uma feira de artesanato e músicos populares também tentam reter as pessoas. Não tenho tempo de observar os detalhes para não perder meu ritmo, e sigo. Quando paro, já estou na Praça XV comprando mais água no mercadinho das barcas Rio - Niterói. 

Entre goles ofegantes consulto meu tempo: média de 5:09 min por km. O peito infla e desinfla mais rápido. Ondas de calor distorcem as imagens no nível do chão. Resolvo que vou monitorar melhor meu ritmo nos próximos quilômetros e penso: "Se o meu ritmo cair, eu aborto a missão". Dito e feito: quando cheguei ao Aeroporto Santos Dumont, despenquei para a média de 5:12 e parei.

Copacabana ficou me esperando a oito quilômetros dali. Eu, que saí para correr com sunga de praia por baixo da bermuda, não daria um mergulho no mar, desta vez... Paciência... Recobrei o fôlego, caminhei até o metrô, mas não estava nem de longe decepcionado: Semana que vem eu volto pra fazer isso direito!

Abraços!

Bira.
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