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Recorte de imagens da internet, com efeitos do Gimp.

Prepare-se! Você Vai Precisar da Corrida 


Amigos!

Prepare-se! 2018 chegou com tudo nos bares, nas esquinas e nas redes sociais. Um ano de conflitos, que só estão esperando o carnaval passar para fazer o seu desfile. A chapa vai esquentar muito mais que o asfalto onde você corre.

Prepare-se! 2018 vai provocar discórdia entre bons amigos nos bares, nas esquinas e nas redes sociais. É que um rio de dinheiro ficou represado e aguarda os vencedores da guerra "ideológica" para definir seu novo curso. O dinheiro correrá para os bolsos deles, num ritmo muito mais rápido que o seu "pace" de corredor.

Prepare-se! Em 2018, as ventanias de janeiro prometem se estender por todo ano. Filhotes de pássaros cairão das árvores, feito mangas verdes, que nos temporais cobrem o chão. Mas os dançarinos, provocadores das chuvas, no entanto, estarão muito bem abrigados. No fim da guerra, eles trocarão apertos com as mãos lavadas nas águas da tormenta, com a mesma tranquilidade que você lava sua camiseta suada.

Prepare-se! Em 2018 você vai precisar da corrida. Com ela em dia, você poderá sorrir ou trocar de assunto sempre que a chapa esquentar. Seja no bar, na esquina ou nas redes sociais. Você poderá ignorar os que querem lhe enfileirar nos conflitos que eles mesmo provocam. Você não se perderá dos amigos nos treinões da vida. Tampouco perderá os amigos que a corrida lhe deu.

Prepare-se!

Abraços!

Bira.
Correndo na Montanha, recorte e colagem com Gimp, Bira - 27-01-18.

No Dia em que Eu Corri na Montanha...


Amigos!

No dia em que eu corri na montanha, pude ver, lá do alto, o mar espelhando o céu. Uma infinidade de azuis invadiu os meus olhos enquanto o vento desceu das nuvens para me acariciar. Vi a espuma branca das ondas imitando o movimento branco das nuvens. No entorno da trilha, onde eu trotei, o capim criou olas agitadas pela brisa. O deslocamento não me permitiu observar a beleza de uma flor semi oculta na relva. Mas percebi o coletivo das flores espalhadas ao longo do caminho, então elas passaram a correr do meu lado... Foi incrível descobrir que as flores correm, expelindo polem e borrifando perfume! Foi surpreendente perceber que as borboletas amarelas piscam, feito vaga-lume, no abrir e fechar das asas de um voo imprevisível. Fiquei surdo no zunir de um vento forte e repentino, que abafou o piado dos pássaros. Mas eu sabia que as aves estavam por perto, saboreando sementes ou devorando insetos. Volta e meia, elas plainavam naquele vento e ficava fácil entender porque vivem cantando.

No dia em que eu corri na montanha, tive a recompensa por todo esforço que fiz, durante os anos que treinei na cidade. Foi assim que ganhei condições de subir a montanha. Disputando espaço com os automóveis, reivindiquei uma faixa de asfalto para treinar. Meu cenário era limitado pelos muros e paredes pichadas. Em alguns momentos, pelo viaduto sombrio onde um casal de mendigos dormia e se escondia do céu. Mais adiante, uma vitrine exibia flores sequestradas, talvez na montanha. Outras vitrines vendiam frascos de perfume extraídos de outras flores. Passarinhos assustados procuravam árvores para pousar. Borboletas dormiam, de dia, para se travestir de mariposas, de noite, e depois morrerem tontas de tanto girar em volta de uma luminária. Se os ventos da cidade assobiavam, era prenúncio de chuva forte, com possibilidade de enchente. Se a chuva caísse, terminaria mais um treino para mim.

No dia em que eu corri na montanha, é bem possível que eu não estivesse pisando ali. É bem possível que aquela montanha fosse fruto da minha imaginação. Um lugar ideal para correr e se encantar com o mundo, onde o azul não tem limites. Um descampado sem muros, paredes, coberturas e medos. O inverso do subúrbio da cidade onde eu nasci. Uma fuga, um abrigo, um trono no topo do mundo! É que a energia que flui na montanha repercute pela vida inteira. Pouco importa se o corredor ainda nem tenha, de fato, chegado até lá. Mesmo que ele suba a montanha no seu último dia de vida. A energia da montanha regredirá para o seu passado. E todo o passado se transformará, mostrando que não existe o impossível. E toda a história da vida do corredor valerá à pena, visto que lhe conduziu até a montanha!

No dia em que eu corri na montanha, justifiquei meu passado e num passe de mágica vi tudo mudar!

Abraço!

Bira.
Gif animado feito com recortes de imagens da internet - Bira, 24-10-18.

Amigos!

Tinha Uma Tarde Correndo Comigo...


Tinha uma Tarde correndo comigo, nas ruas da cidade,
Além de um sol solitário me plagiando, lá no céu.
Tinha um display digital de relógio, no meu pulso,
Pulsando os segundos, na cadência do meu coração.

Tinha Corrida no asfalto onde meus tênis passavam,
Rompendo os limites ou costurando os bairros!
Tinha um rio de felicidade atravessando o meu corpo,
Respingando otimismo à flor do meu chão.

Tinha uma Noite afoita por invadir o meu treino.
Tinha meu treino inquieto por penetrar na Noite.
Só faltava os postes acenderem e a Tarde se despedir,
Como se despedem os corredores na passagem de bastão.

Tinha uma sequência de postes demarcando meu caminho.
Tinha uma sequência de ruas me convidando para entrar.
Os faroletes dos carros, que iam, avermelharam meus olhos,
Os faróis de milha dos carros, que vinham, ofuscaram minha visão.

Tinha uma noite correndo comigo, nas ruas da cidade,
E uma maldosa topada pronta para me derrubar.
Tinha astros ocultos correndo, no anonimato do céu,
E um monstro de nuvem engolindo a lua na escuridão.

Tinha um sol brotando, a cada instante, nos mares do mundo,
Formando uma Manhã que corre pelo planeta sem parar.
Tinha uma possibilidade de recomeço ao nascer de cada dia,
E milhões de corredores que tomaram essa mesma decisão.


Abraço!

Bira.
Sonhos Que Correm, Imagem composta de recortes da internet, com Gimp - Bira, 15-01-18.

Meus Sonhos Também Correm!


Um belo dia, lá nos idos de 1985, eu sonhei em participar de uma corrida e fiz minha inscrição na Maratona do Rio. Até hoje não sei o que deu na telha, pois eu não era um corredor. Só vi o tamanho da encrenca ao me meter, entre seis mil atletas, na concentração.

Quando os 42 km de prova iniciaram, eu chorei de emoção. Chorei na largada o choro da chegada. Garanti logo o meu choro, pois minha chegada seria improvável... Mas falando sério, eu acho mesmo é que chorei porque me vi no meio do sonho!

Depois que as lágrimas secaram foi a vez do suor escorrer. Paguei com ele, o preço que pagam os sonhadores inconsequentes e derreti, feito picolé, no asfalto da cidade. Foram cinco horas e meia até concluir a corrida. A despeito do péssimo tempo, eu me tornei um maratonista, de cara!

O meu segundo sonho veio de imediato. Eu quis baixar o tempo de prova, meses depois, correndo em São Paulo. Só vi o tamanho da da nova encrenca, nos últimos quilômetros da maratona paulistana. Uma de minhas pernas travou. Tive que arrastá-la para completar a corrida, em pouco mais de 4 horas.

Embora eu só tivesse 25 anos, aquilo era o melhor que eu tinha para dar. Minha vida era tão dura quanto os tênis da época. Além do mais, eu treinava sozinho, sem saber direito o que fazia. Trabalhava de dia e corria de noite. Quando trotava, pelas ruas do subúrbio, eu era olhado com a desconfiança que olham para os loucos dos anos 80.

Mesmo assim eu tive um terceiro sonho, que se confundiu com a euforia, correndo sobre a Ponte Rio-Niterói. O monumento foi palco dos primeiros quilômetros da Maratona do Rio'86. No vão central, o meu espírito se uniu aos dos demais corredores: (Com gestos espontâneos, acenamos para os helicópteros da TV Manchete. Emendamos o trajeto aéreo com a extinta Perimetral. Depois cruzamos o Aterro e a ferradura da Enseada, em Botafogo. Entramos e saímos na Urca. Entramos e saímos nos túneis. Enfurnamo-nos na noite e na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Fizemos o retorno na altura do Posto 6. Quando entramos na Avenida Atlântica, rumo ao Leme, tivemos a certeza que concluiríamos a prova). Foi somente no corredor de chegada que cada corredor se desgarrou da união espiritual e assumiu sua própria identidade. Eu reassumi a minha e cruzei o pórtico com gestos de vitória. Estava pronto para sonhar de novo, mas a vida tem seus planos...

Por conta da vida eu parei e só voltei a correr 22 anos depois, acredite! O lapso de tempo só estancou em 2009, quando eu fiz 48 anos. Quando a Corrida retornou, ela ordenou que eu trocasse de roupas, de amigos, de lugares, de horários, de hábitos, de disposição, de propósitos e de direção. Só perduraram família, emprego e documentos.

Aqueles sonhos também voltaram e me levaram para correr nas montanhas, nos vales e nas praias. Meus tênis correram em muitas outras metrópoles. Quem me viu passar teve a chance de sonhar em correr também. Hoje mesmo, nas ruas das minha cidade, eu proferi convites para que todos viessem correr. Não precisei bradar uma só palavra, apenas o toc-toc dos meus tênis no chão, feito código morse, se fazia entender.

Agora, os meus sonhos correm para quebrar as barreiras entre os homens, que quando vistos parados até parecem desiguais. Imagina se todos os homens resolvessem correr e que fosse possível nunca mais parar. Rapidamente, acabariam as disputas de território, derrubando as fronteiras do mundo. É que eles correriam o mesmo caminho que se espalha em todas as direções. É que correndo, eles estariam espiritualmente unidos, acenando para Deus como quem acena para um helicóptero de TV.

Abraços!

Bira.



O Ranking dos Grupos de Corrida Voltou!




Amigos!

A primeira vez que BiraNaNet divulgou um Ranking dos Grupos de Corrida, no Facebook foi em 2016. Na época, também entrevistamos os fundadores dos três maiores: João Batista - dos Corredores de Rua, Luciene Casanova - dos Amantes da Corrida e Flávio Loureiro - dos Viciados em Corrida de Rua. Além disso, contamos suas histórias. Hoje, estes grupos continuam liderando, com sobras, mas houve mudanças de posição, entre eles.

Dezenas de outros grupos despontavam, como emergentes, a partir da quarta posição. O Ranking acompanhou o sobe e desce dos grupos e despertou curiosidade geral.

Hoje, um ano e meio depois, voltamos para conferir o que mudou... Quem subiu? Quem desceu? Quem surgiu? Confira, a seguir, os 20 mais populares:

Este levantamento inclui grupos de corrida com mais de 8.000 membros. Utilize os comentários do blog para comunicar qualquer omissão.

1- Análise dos Três Primeiros Colocados:


 CORREDORES DE RUA
1º lugar - Corredores de Rua, em junho de 2016 possuía 70 mil membros. Este mês, janeiro de 2018 = 134.540 (quase o dobro) e vem mantendo a dianteira.
Link: https://www.facebook.com/groups/670415156348578/



 AMANTES DA CORRIDA
2º lugar - Amantes da Corrida, em junho de 2016 tinha 53 mil integrantes. Este mês, janeiro de 2018 = 118.600 (mais que o dobro) e ultrapassou os Viciados.
Link: https://www.facebook.com/groups/126686910740530/



 Viciados em Corridas de Rua
3º lugar - Viciados em Corridas de Rua, em junho de 2016 agregava 68 mil corredores. Este mês, janeiro de 2018 = 94.000 (um aumento estupendo, mas não suficiente para manter a 2ª posição).
Link: https://www.facebook.com/groups/viciadosemcorridasderua/


Observe o gráfico e dos três primeiros:

De 05/2016 até 01/2018, os Amantes da Corrida deu um salto, mas os Corredores seguem firmes na dianteira. 


2- Os Grupos Emergentes:

4º lugar - Tubinaticos - Amigos da Vila Olímpica 
- novo no Ranking! membros: 25.509.
Link: https://www.facebook.com/groups/tubinaticos1/

5º lugar - Caçadores de Atletas
- subiu 16 posições! De 5.946 para 18.173 membros!
Link: https://www.facebook.com/groups/1021127647924946/

6º lugar - Atleta Michele Daniele
- subiu de 14.192 para 16.800. Caiu 2 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/1734487013452199/

7º lugar - Corrida Energia Vibrante
- subiu de 11.961 para 14.257. Caiu 2 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/356929897760179/

8º lugar - Corredores
- subiu de 11.916 para 13.885. Caiu 2 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/145394755509406/

9º lugar - Prazer em Correr
- subiu 14 posições! De 5.654 para 12.961.
Link: https://www.facebook.com/groups/prazeremcorrer/

10º lugar - Corredores Capixabas
- subiu 1 posição! De 10.504 para 12.078.
Link: https://www.facebook.com/groups/302757236407794/

11º lugar - Nike+ Run Club-RIO
- subiu de 10.811 para 11.484, descendo 1 posição.
Link: https://www.facebook.com/groups/264760153712668/

12º lugar - Correr Entre Amigos
- caiu de 11.673 para 11.417, descendo 5 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/correrentreamigos/

13º lugar - Guepardos Endorfinados
- manteve a 13º posição, subindo de 10.072 para 10.577.
Link: https://www.facebook.com/groups/503169739843799/

14º lugar - Sou Atleta
- caiu de 11.058 para 10.468, descendo 6 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/souatleta/

15º lugar - Loucos Por Corrida L.P.C
- caiu de 11.031 para 10.466, descendo 6 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/253975891293987/

16º lugar - #EuQueroCorrer
- caiu de 10.342 para 10.303, descendo 4 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/353636094809596/

17º lugar - Corredores de Brasília
- subiu de 8.236 para 9.743, descendo 2 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/corredoresderuaBSB/

18º lugar - Corredores do Rio de Janeiro
- subiu de 7.894 para 8.231, descendo 2 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/172311202806915/

19º lugar - Tarja Preta Runners
- subiu 3 posições! De 5.936 para 8.113 membros.
Link: https://www.facebook.com/groups/988516331191439/

20º lugar - Corredores Cariocas
- subiu de 7.358 para 8.036, descendo 3 posições.
Link: https://www.facebook.com/groups/corredorescariocas/

- obs. O Grupo Geração Saúde, que detinha o 14º lugar, com 9.097 membros, não foi localizado.

Avaliando os Grupos do 4º ao 20º lugar:

Boa parte deles manteve-se estagnada, aumentando muito pouco seu contingente e perderam posições por isso. Os grupos que mais ganharam adesões foram: Caçadores de Atletas (multiplicado por três!) e Prazer em Correr (que ficou duas vezes e meia maior!). Surpreendentemente, esta edição apresenta o Tubináticos, que já chega ocupando o topo com nada menos que 25 mil componentes.

Futuramente faremos novas apurações, extensivas a grupos de até 5 mil membros. Qualquer omissão pode ser citada nos comentários de rodapé, que corrigiremos mais tarde.

Lembrando ainda que este Ranking tem caráter recreativo, até mesmo orientador, para aqueles que utilizam os grupos para promoções ou troca de informação.

Para finalizar, preparei no link abaixo, uma seleção de Crônicas de Corrida que é especialidade de BiraNaNet... Clique na Imagem e confira!

Degustação BiraNaNet - clique!

 Clique e conheça um pouco do blog!









Abraço!

Bira.
Foto de Erivaldo Zim - fonte Facebook.

Um Corredor Passou por Aqui


- Pela memória de Zim, que propiciou tantos momentos inesquecíveis aos seus amigos de corrida.

Um corredor passou por aqui
Deixando respingos no chão
E um rastro de sorriso no caminho.

Ele foi naquela direção,
Pela estrada que termina
Onde começa a trilha da montanha.

Mas o corredor não estava sozinho.
Dezenas lhe seguiam
Correndo e sorrindo igual.

Todo o bairro, mesmo parado,
Seguia-lhe com os olhos.
E aí, todo bairro sorriu também.

Um corredor conduziu seus amigos
Pelas trilhas dos vales,
No meio da mata.

Fez que todos ficassem tranquilos,
E desvendassem as belezas
Da subida da montanha.

Fez que a própria montanha
Se sentisse amada e regada
Do suor que vem do encanto.

Mas todo encanto da mata
Não existiria se não houvesse
Corredores a observar.

É que o corredor consciente sabia
Que o encanto não existe sem olhos que o vejam.
Que o amor não germina fora dos corações.

Então, o corredor consciente chamou outros corredores,
Agregou outros olhos e outros corações
E revelou todo encanto, e promoveu todo amor!

Um corredor passou por aqui
Deixando respingos no chão
E um rastro de sorriso no caminho.

Ele foi naquela direção,
Pela estrada que termina
Onde começa a trilha da montanha.

Agora, o corredor vai sozinho,
Mas um dia seguiremos seu rastro
E nos sentiremos seguros, de novo, ao seu lado.

Obrigado Zim, por nos ter guiado em tantas trilhas e tantos treinões!



Abraços!

Bira.



Tênis de Chuva e Flores - Montagem com recortes de imagens de internet - Bira, 06-01-18.

Meus Tênis de Chuva

Amigos!

Meus tênis de chuva estão desgastados nas solas, têm marcas de atrito na entressola e puídos no cabedal. Eles também precisam de uma boa lavada que eu não tive tempo de dar. É que depois da última vez que corremos, só eu tomei banho. Já eles, ficaram embaixo de uma goteira para se livrar dos respingos de lama. Depois disso, secaram aos poucos e ganharam um cheiro de cachorro molhado. Feito um cão molhado, meus tênis de chuva nem entram mais em casa. Arrumei um canto para eles, do lado de fora, onde repousam dos treinos sem sequer latir.

Mas nem sempre foi assim...

Ainda lembro do primeiro dia com eles, novinhos, em minhas mãos. Suas cores brilhavam, dentro dos meus olhos, e seu leve cheiro de borracha sintética, feito perfume, invadiam meu peito. Acalentei-os, antes de experimentar sua maciez nos pés. A sensação foi tão boa que eu tive pena de estreiá-los na poeira do asfalto. Fiquei um bom tempo levando-os para trabalhar no escritório, comigo, ou passear-mos no shopping, feito namorados. Aleguei, pra mim mesmo, que eles precisavam amaciar antes de correr pelas ruas.

Dissipada a paixão, encaramos os treinos e nos tornamos bons companheiros. Na primeira corrida que fizemos, meus tênis se viram acuados, no corredor de largada. Viram, no seu entorno, um emaranhado de pernas ansiosas pela partida e uma multidão de tênis inquietos de todas as cores e todas as marcas. Enquanto isso, eu tentava enxergar o display da contagem regressiva, no alto do pórtico, ignorando as imagens ao nível do solo. Quando a sirene tocou, veio o frisson da largada e a energia dos corpos em movimento repentino. Naquele momento, meus tênis descobriram para que vieram ao mundo e desabrocharam, feito flor.

Meses velozes passaram feito corredores de pista... 

Sem que eu desse conta, meus tênis se desgastaram no solado sob o calcanhar. Percebi que eles também já não tinham o mesmo amortecimento que antes, mas prossegui. Certo dia, entrei na loja de artigos esportivos e deparei com outro par, em promoção. Eles tinham brilho, cheiro e maciez de calçado novo. Não resisti e comprei. Então tudo se repetiu: tive pena de colocá-los para correr na rua. Amaciei-os, primeiro, no escritório ou no shopping. Enquanto isso, o outro par continuava se desgastando nos treinos de asfalto.

Quando pensei em jogar fora meus velhos tênis, janeiro chegou... 

Vieram as tardes chuvosas e os rastros de lama nas ruas. Meus velhos tênis não foram para o lixo, mas viraram meus tênis de chuva. Na primeira tempestade, pingos grossos despencaram do céu, trazendo uma alegria que só quem corre na chuva consegue ter. Para colher esse contentamento, tem que ter coragem e se livrar do guarda-chuva. É preciso perder o medo da trovoada ou de olhos alheios. Desmanchar, numa pisada, seu próprio reflexo na poça d'água do chão.

A poeira da estrada virou lama que cubriu os cabedais dos meus tênis e respingou minhas panturrilhas. Meu olhar, atento ao trânsito, ignorava tais detalhes. Eu não poderia deixar que o prazer que sentia terminasse num trágico escorregão. Meus tênis de chuva chafurdavam com a alegria dos porcos, e outra vez desabrocharam como lírio no lodo!

Meus tênis de chuva estão desgastados nas solas, têm marcas de atrito na entressola e puídos no cabedal. Há algum tempo perderam o status de tênis principal para outro novinho e quase foram para o lixo. Ainda bem que existem as fortes chuvas, das quais os fracos se abrigam e os bravos até conseguem ser felizes. Meus tênis de chuva me ensinam a ser forte e feliz, encontrando alegria nas condições onde muitos só veriam o sofrimento.

Abraços!

Bira.


Fritando tênis no asfalto - recorte de imagens da internet... com Gimp.

Um Pedaço de Asfalto para Fazer meu Longão... 

Amigos!

Tudo que eu preciso é de um pedaço de asfalto, rente ao meio fio, para fazer meu longão...

Não faço questão de correr rente ao mar, entre o sopro da brisa e o barulho das ondas. Pode ser aqui mesmo, na Vila da Penha, rente ao valão da Oliveira Belo e a estridência do carro do ovo. "São 30 ovos por 10 reais", 30 minutos por meia dúzia de quilômetros... Nada excepcional, ninguém famoso passando tanto quanto o meu passar. Às vezes os carros teimam em não me ceder espaço que eles próprios disputam entre si. Às vezes, tenho que correr nas calçadas, repletas de crianças, idosos, camelôs, sacos de lixo e lixo fora do saco. Diminuo a velocidade, quase paro. Passo em frente ao sacolão, que instalou uma barraca no meio do caminho, vendendo ovos: "São 30 por 10 reais"... E eu completo mais 30 minutos de treino em 10 quilômetros de percurso.

Tudo que eu preciso é de um pedaço de asfalto, rente ao meio fio, para fazer esse longão... 

Não faço questão de correr em clima ameno, entre as seis da manhã e o gorjear dos pássaros. Tem vez que eu só posso correr por volta das 11, hora que é possível "fritar ovos no asfalto". Aqui, onde eu corro, 2017 foi o Ano do Carro do Ovo: Tenho 30 ovos na cartela e estou a 30 quilômetros do mar. Corro onde brisa marinha sente medo de soprar. Ao longe, vejo os morros que deveriam verdejar, mas têm a cor dos tijolos das paredes sem reboco. Corro acuado pelo tráfego, dependendo de onde passar, pelo tráfico. O movimento o meu corpo não se compara ao "movimento" ilegal das drogas. É que os efeitos das endorfinas, no meu cérebro, não destroem minh'alma. Sou adicto do bem. Não me ocupo em saber do preço das drogas no morro, saber o preço da cartela de ovo é suficiente. No mais, a beta endorfina é de graça!

Tudo que eu preciso é de um pedaço de asfalto, rente ao meio fio, para fazer esse longão...  

Descobri que a chave da cidade foi talhada no solado dos tênis. Descobri que quando amarro, ali, meus pés, estou ganhando livre acesso para todos os lugares. Sinto a liberdade fluir de baixo para cima, subindo pelas pernas, cruzando o peito, para contagiar minha cabeça no contra-fluxo do suor.
Percebo que a corrida também faz de mim uma cidade. Minhas veias são minhas vias, ruas, capilares condutores de energia. Acesso a mim mesmo. Sinto prazer, abro um novo sorriso e meu olhar cintila pedaços da alma... Estou renovado e nem dou conta que estou correndo, até que passa outro carro estridente do ovo. Desligo o piloto automático, ouço o aplicativo dizer que já completei 20 quilômetros do trajeto.

Tudo que eu preciso é de um pedaço de asfalto, rente ao meio fio, para fazer esse longão... 

Descobri que a chave do céu não tem forma, tão pouco se situa. Descobri que quando sonho, e corro, o céu projeta meus desejos. Passo a correr entre um rebanho de nuvens-ovelhas, na imensidão do azul. Já não estou no próprio corpo encharcado de suor, pois escapei no seu vapor. A corrida faz com que eu vire nuvens-ovelhas... Hei de chover no fim da tarde, ou amanhã, ou quando meus sonhos se tornarem realidade. Fluindo no céu, vejo aviões cruzarem por todos os lados. Um deles descerá no Aeroporto do Galeão, a poucos quilômetros de onde meu corpo ainda corre. Descerei junto com ele e re-encorporarei em mim mesmo para terminar o meu longão.

Tudo que eu preciso é de um pedaço de asfalto, rente ao meio fio, para fazer esse longão... 

Completo os 30 quilômetros de treino, um para cada ovo da cartela do carro. Enquanto isso, o Ano do Carro do Ovo está chegando ao fim... 2017 foi um dificílimo longão para tanta gente, neste país. Tenho a sorte de ser corredor e poder suplantar os problemas no próximo treino. Entro em uma padaria, abro a geladeira para pegar um isotônico. Saco do bolso uma nota de 10 reais e dou ao caixa. Neste momento, passa o Carro do Ovo anunciando seu produto e eu tenho noção do valor daquela nota.

Abraços (de feliz ano novo)!

Bira.
Na altura do KM 25, em São Conrado, eu ainda corria no ritmo de 5x1 - na foto de Gleice Medeiros (editada).

Um Km de Cada Vez na Maratona do Rio

Amigos!

De repente, a minha coxa enrijeceu e recebeu uma fisgada. Comecei a mancar e proferir palavrões, em pleno quilômetro 30 da Maratona do Rio. Nem quis saber da plateia que animava os corredores e também me aplaudia. Não tive a mesma elegância que tem o Leblon, bairro onde eu pisava. Espumei de raiva, feito as ondas do mar do Posto 12. Desferi socos de revolta no ar:

-- Isso não vai acabar assim!!... - dramatizei.

Fiquei atônito, interrompi a corrida e caminhei por poucos metros. Tentei colocar os pensamentos em ordem, quando deparei com um ponto de hidratação. Automaticamente, peguei um punhado de gelo e esfreguei na dor. Logo, percebi que aquele gesto era inócuo e, num impulso, voltei a correr. Porém corri devagar, torcendo para a coxa se estabilizar e não falir de vez (quem sabe?)... Naquele momento eu dava um passo de cada vez, e assim fui conseguindo. Depois tentei me desligar do problema. Ainda faltavam 12 quilômetros para a chegada, no Aterro, mas eu nem queria pensar nisso também...

Cinco Horas Antes...

O alarme irritante do celular anunciou que eram quatro da manhã. Despertei, e o meu frisson não deu vez à rotineira preguiça matinal. De imediato, pensei nos milhares de corredores que também acordavam, naquele momento, sentindo o mesmo frisson pré-maratona. Só que tinha um problema: eu estava em Irajá, muito longe da largada e sem nenhuma carona prevista. Tratei de me arrumar, enquanto toda família dormia na segurança do lar. Do lado de fora perdurava o medo das ruas escuras, desertas e frias, enquanto o sol não nascesse. Esperei dar cinco horas para encarar esses fantasmas até a estação do BRT.

Largada da Prova sem Ver Meus Amigos...

Cheguei no Pontal às 7:10 h e não tive tempo de encontrar meus amigos. Pouco depois, entrei no corredor de largada sem estar seguro de que eu sequer concluiria a prova. É que tive problemas e, nas últimas semanas, treinei muito pouco. Perdi confiança e condicionamento. Foi culpa da fascite plantar que me contra atacou, acompanhada de outra dor misteriosa nos pés, ainda presente. Até então, eu pensava fazer a prova em 3:30 h e treinava para isso. Depois fiquei sem planos, mas iria correr o quanto desse, do jeito que desse.

Um Km de Cada Vez...

Na largada, milhares de cabeças projetavam milhares de estratégias... Para me animar, eu recorri a um velho bordão de auto-ajuda que adaptei:

-- Vai ser um quilômetro de cada vez... - pensei.

O aglomerado de gente levou três quilômetros para começar a se dispersar. A partir dali, acelerei naturalmente, sem forçar. O aplicativo de corrida, do celular, começou a anunciar paces abaixo de 5 x 1 (cinco minutos por quilômetro). Foi assim que cheguei à metade da prova, na Praia do Pepê, com 1h 44 min. Até ali, apenas meus fones de ouvido sem fio perderam a carga, eu não. Para trás ficaram o Recreio, a Reserva e toda Barra.

Mas eu sabia que não seria tão fácil. As primeiras caretas de cansaço estamparam minha face na Praia de São Conrado. Um pedaço de rapadura que ganhei, no começo da Avenida Niemeyer, devolveu minha energia. A Perda de ritmo, naquela subida, era natural. Mas quando eu comecei a descer, segurei o ritmo para me poupar. Os quilômetros trinta se aproximavam feito um garçom trazendo a conta depois de um banquete e eu delirei:

-- Vou ter que passar o cartão de crédito... Não tenho cash para bancar essa conta!

Eu estava mais ofegante quando cheguei ao Leblon, mas ia bem. Reprogramei o ritmo, do restante da corrida, para 5:20 minutos por km. Se obtivesse sucesso eu poderia completar a prova em 3:40 h... Foi naquele momento que eu senti a fisgada.

Faltando apenas um quilômetro para a chegada, no Aterro - arquivo pessoal editado.

Corrida Bipolar...

A lembrança de um amigo corredor dizendo que "a maratona só começa depois do km 30" me fez pensar:

-- Se é assim, eu já estou começando esta prova lesionado... Será que completo??

Iniciei uma corrida bipolar: Quando a mente fraquejava eu sentia dores nos pés, quando o otimismo perdurava, eu percebia a melhora da coxa e que daria para completar. Em Ipanema, recorri ao primeiro sachê de carboidrato com cafeína. Sorvi outro sachê em Copacabana, quando tive a certeza de concluir a prova. Mantive um trote de a 6x1 para evitar surpresas desagradáveis. Cruzei os túneis e avistei o Pão de Açúcar. Imaginei o pórtico de chegada me esperando, bem como a cama do meu quarto:

-- O ideal seria que ao cruzar o pórtico eu ressurgisse na cama, de onde me levantei às quatro. Algo assim como o transporter de Jornada nas Estrelas!... - pensei isso, com a careca afeta pelo sol.

Mas quando eu cheguei no retão de chegada, esqueci do cansaço. Acelerei em meio à plateia e comecei a vibrar. Esqueci de todas as dores, de todas as dúvidas e das expectativas frustradas. Levantei os braços vibrantes e nem conferi meu tempo de prova. Fiz aviãozinho, mostrei os bíceps e ergui o punho direito. Alguém gritou meu nome e eu sorri atirando beijinhos de pop star.

Ao me aproximar do pórtico, meus olhos não definiam as formas, apenas as cores. Por fim, eles esqueceram de chorar... Desta vez, não derramei nenhuma lágrima além do suor... Cruzei a linha de chegada e, por fim, quebrei! Quebrei na hora certa!

Abraços!

Bira.
Amigos!

Medalha da Corrida da Ponte sobre imagem de internet. Bira, 22-05-17.

Fechei os olhosmeti a mão na caixa de medalhas e sorteei a medalha da Corrida da Ponte 2011... "Que bom!... Vou começar esta série descrevendo uma corrida que deixou saudades!" - pensei... Então, Vamos conferir essa história?

Histórias de Medalhas - Corrida da Ponte'11

Confesso que eu trato mal minhas medalhas de corrida. Elas não ficam expostas em portas-medalhas, mas jazem nas gavetas, feito defuntos no cemitério. Isso até pode ser descuido, mas não é desfeita: volta e meia eu as visito, como o familiar que põe flores na sepultura de um ente. É que eu sei o quanto valeu cada corrida, nem tanto pelas provas, mas pelos [treinos, amigos, viagens...] que fiz. Fiz viagens marcantes, em algumas sequer peguei ônibus ou avião: Bastou-me calçar os tênis e correr pelo bairro.

Atrás de cada medalha, uma história; atrás de todas, uma vida...

BARCA

Em maio de 2011 fui fazer uma das provas mais cobiçadas da época: a Corrida na Ponte. Cruzar a baía correndo era, no mínimo, excitante para oito mil atletas. A maioria saiu do Rio e pegou a barca, na Praça XV, tão logo o sol tinha nascido. Repleta de corredores, a embarcação ficou em festa. Muita gente se reencontrou naqueles 20 minutos de travessia. O burburinho causado competia com o chacoalhar das ondas. As águas do mar faziam tudo se mover, menos ela: A Ponte! Aquele monumento era um gigante adormecido sobre a baía, assustando uma corredora iniciante, que ficou imaginando coisas e fez a pergunta:

-- Será que venta muito e a Ponte fica balançando no vão central?

Desembarquei, em Niterói, sem saber exatamente que direção tomar, mas isso não foi necessário. Bastou seguir o fluxo dos corredores, sem perguntar, que em poucos minutos cheguei ao Caminho Niemeyer - local da largada. Fiquei surpreso com a beleza do Teatro Popular, encontrei mais amigos e tirei fotos. Conversei um pouco, antes de entrar no grid e depois largar.

PONTE

O público festejava os corredores nos primeiros dois quilômetros, percorridos nas ruas de Niterói. O calor da plateia não deixou que eu notasse o calor do ambiente. Foi quando cheguei à Ponte e atravessei o pedágio que o sol bateu forte nos meus ombros. O vento, no entanto, não estava ali para soprar. Nem no temido vão central ele soprou, para alívio da corredora que estava com medo na barca. Vi gaivotas plainando e pensei: "Como conseguem sem vento??" Vi navios ancorados, submersos na névoa que se espalhou sobre as águas.

Um resfriado mal-curado resolveu me atacar, bem no meio da Ponte. Senti meu peito congestionado e não tive energia para acelerar. Comecei a sofrer, ainda no meio da prova, mas prossegui. Foi duro ver corredores me ultrapassando, com paces inferiores aos meus ritmos de treino. Quase parei para caminhar um pouco (acho até que caminhei, não me lembro bem). Mesmo assim venci os 14 km de Ponte. Sem descer do viaduto, migrei para a falecida Perimetral - elevado que ligava a Ponte ao Aterro. Meu ritmo lento recuperou as forças e eu até pensei em acelerar, mas não valia à pena - eu já tinha perdido muito tempo. Sem pressa, desembarquei da Perimetral nas proximidades do Aterro - local de chegada - e completei os 21,4 km da prova.

ATERRO

Depois da corrida, ouvi muita gente reclamar do clima abafado. Enquanto isso, o sol assumiu seu lugar no meio do céu. Seu brilho afugentou a névoa e restaurou o azul. As gramas do Aterro verdejaram, como sempre, embaixo dos tênis coloridos e cansados. Ao lado do pódio, um locutor animado anunciou os resultados e ainda saudou um ou outro corredor que chegasse. Os chuveiros da dispersão eram doces, e os corredores eram crianças, na disputa.

Mais gente se encontrou, e se abraçou, e falou da prova, e mostrou marca do tênis, e falou de tudo que os corredores falam na Ponte da Vida.

Abraços!

Bira.

Minha Última Maratona

gif com imagens de internet - Bira

Amigos!

Ainda falta um mês para a Maratona do Rio, mas eu resolvi consultar a minha bola de cristal, viajar no tempo e antecipar o relato da prova futura: MINHA ÚLTIMA MARATONA (vai ser assim): 

Pontal do Recreio - Domingo, 18 de junho de 2017 - Maratona do Rio:

FRISSON

O dia ainda está clareando e engolindo as estrelas do céu do Pontal. Há um movimento incomum de carros de passeio, vans e ônibus no entorno da Avenida Lúcio Costa. Eles querem despejar maratonistas afoitos para a grande prova. Pouco a pouco, o asfalto interditado está sendo encoberto pelos tênis que vão e vêm, em todas as direções. Falta mais de uma hora para a largada, mas já tem corredores se aquecendo na ciclovia às margens da praia. Eles parecem antecipar o exercício para fugir do frisson indisfarçável em seus olhares. Em repentes, a quantidade de atletas aumenta... Até parece que eles estão brotando no asfalto, que coisa!...

VENTO

Clareia mais um pouquinho e os coqueiros fincados na praia resolvem chiar e dançar com o vento. Este dançarino invisível, há pouco, ainda brigava com as ondas do mar. O incansável vento, dançarino e brigão, atravessou  a noite tentando cobrir de areia o calçadão. Ele soprava rasteiro, formando um imenso tapete de grãos migrantes, que alisavam a superfície sorrateira da praia e apagavam as pegadas do dia. Agora, o vento tecelão se faz amante e acaricia as pernas dos corredores, na pré-largada. Sinto seu frio eriçando minha pele. Penso:

-- Esses beijos gelados do vento seriam muito mais úteis no meio da prova, quando o sol tomasse pino...

GRID

Paro de pensar e observar o cenário. Coloco meus pertences no saco de treino e deixo no guarda-volume. Prendo a respiração, fazendo careta, para urinar no banheiro químico. Tiro as últimas selfies com os amigos e troco votos de boa prova. Confiro que faltam vinte minutos para a largada e me posiciono, com os demais corredores, entre as grades.

DRONE

Clareou de vez, mas o sol ainda boceja um brilho amarelo e oblíquo sobre o Recreio. A luz solar, no entanto, mal consegue tocar no chão dos maratonistas espremidos, aos milhares. Caixas acústicas espalham música eletrônica no ar, espantam os pássaros e abrem caminho para o voo tranquilo de um drone. Neste momento o locutor anuncia: "A festa vai começar!".

LARGADA

Soa a sirene, disparam de vez os corações! Quem está na frente arranca. Quem está no meio, feito eu, mal pode caminhar ainda. Apoio as mãos no corredor da frente, enquanto o detrás se apoia em mim. Ergo o pescoço, fico nas pontas dos dedos, quero avistar o pórtico, 50 metros à frente... Não dá. Logo, é possível andar mais rápido, depois trotar e por fim: correr!... Liberto-me, transpasso a linha da largada!

PRAIA DA RESERVA

Tudo são sorrisos no começo da prova, feito um novo namoro, um novo emprego ou uma nova vida. O frescor da manhã ainda perdura às margens da Praia da Reserva. Ali, uma passarela de asfalto ousou separar a areia, da mata. Belezas distintas se exibem à esquerda ou à direita de quem corre. O silêncio da mata se opõe às pancadas das ondas do mar. O ambiente se faz lúdico, mágico e energético. Os corredores se fazem incansáveis!

APLICATIVO

O chão da Barra passa depressa embaixo das solas dos meus tênis. Já estou na Praia do Pepê, onde, mais cedo, foi dada a largada da meia-maratona - prova paralela. Ninguém que tivesse treinado como eu, sentiria cansaço na metade da prova. A voz do aplicativo de celular anuncia: "vinte-e-um-quilômetros-em-uma-hora-quarenta-e-cinco-minutos...". Simplificando, basta manter o ritmo e completar a prova em 3:30 h, mas eu sei que não é bem assim...

BEBÊ

Saio o Pepê e subo um elevado. Entro nos túneis do Joá, onde canhões de luz e som animam os corredores, rompendo o silêncio e a escuridão. Saio do túnel e o azul do céu de São Conrado inunda meus olhos. Desço o elevado, curvo, para transitar às margens de outra praia. meus companheiros de jornada já estão mais dispersos. Quando passam, provocam sorrisos de um bebê em seu carrinho. Bebo um isotônico, repondo as forças, para subir a Avenida Niemeyer. O perigo, no entanto, está na descida daquela pista: é preciso conter a vontade de soltar o freio e gastar energia. Já cometi esse erro, duas vezes, e vi meu ritmo despencar no Leblon. Agora, tenho calma, e o Leblon me recebe com os aplausos da plateia.

COPACABANA

Chega a hora da verdade: Copacabana. Cada posto de salva-mar faz uma contagem regressiva para a chegada: No Posto 6, faltam seis quilômetros, no Posto 5, idem e idem... Até que dobro a Avenida Princesa Isabel, faltando 2. A chegada, no entanto, nunca esteve tão longe pra mim. Luto para manter o ritmo, em vão. Reviro meu cinto de utilidades em busca de uma bisnaga de gel de carboidrato. Minhas passadas encurtaram e a sola do tênis, às vezes, arrasta no chão.

-- Bira, você devia ter treinado mais! - repreendo a mim mesmo.

-- Paciência, não deu! - respondo-me, agressivo.


CHICOTADAS

Paro de brigar, no pensamento, e chego à enseada de Botafogo. Essa curva me parece ser a mais extensa do mundo! A um quilômetro da chegada e eu não tenho condições de admirar o Pão de Açúcar, tampouco os veleiros brancos que flutuam na marola da baía, refletindo a luz do sol. Esse sol orgulhoso que exibe a cidade enquanto dá chicotadas em mim. Ele ainda tenta me abater, mas nessa altura já sabe que perdeu:

São onze e vinte e eu concluo a maratona com 3 h e 44 min... Não é grande coisa, mas é!... É a Minha Última Maratona!

Abraços!

Bira.

Fui correr a Maratona do Rio'85, do nada, sem estar habituado a correr ou dar um treino sequer - foto da chegada.  

Escolhi a Corrida!

Amigos!

Talvez eu tivesse apenas dez anos de idade quando escolhi a corrida!...

... Era noite e meu irmão, já adulto, mandou que eu comprar coca-cola. Faz quarenta e sete anos, mas eu me lembro da carreira que dei. Corria levando nas mãos a garrafa de vidro do refrigerante "tamanho família" - naquele tempo não existia garrafas pet e era preciso retornar um casco vazio na compra de um cheio. Possivelmente eu estivesse descalço, pisando no chão acidentado e sem calçamento, como era costume. Ignorei os riscos de me ferir e fantasiei que fosse um atleta em plena competição. Experimentei o prazer transbordar pelos poros, feito a coca-cola que transbordou na mesa, durante o jantar... E eu nunca mais quis parar de correr!

Cresci mais um pouco e fui jogar futebol, onde eu só era escalado nas pontas. Nunca fui bom com a bola nos pés, mas quando lançavam a bola nos francos eu corria demais. Corria para pegar pipa avoada, mas nem queria empinar o brinquedo depois, apenas correr atrás de outra... Corria atrás de um balão apagado ou atrás de outro moleque, no pique. Saía de casa atrasado e ia correndo para a escola. Retornava da escola, às carreiras, para chegar logo em casa. Sempre encontrava motivos que me fizessem correr.

Mas, no silêncio daquelas noites, o tempo sorrateiro surgia feito um rato...

... Cirurgicamente, o tempo surrupiava pedaços da minha infância, sem ninguém perceber. Noite após noite, furto após furto, toda minha infância pareceu se esvair. Então, para os outros, o meu corre-corre foi perdendo a graça. Eles disseram que eu tinha que trabalhar e ao mesmo tempo estudar. Estudei e trabalhei e não tive mais tempo para nada, muito menos correr. Gente, daquela época, também dizia que "pobre correndo era ladrão ou maluco". Eles diziam isso sorrindo e fumando com o charme dos galãs de Hollywood, que não sabiam atuar sem um pito na boca. O jeito foi eu parar correr e tentar aprender a fumar, feito eles, mas, felizmente não consegui.

Talvez eu tivesse vinte e cinco anos de idade quando escolhi a corrida, outra vez!...

... Eu desfolhava o Jornal do Brasil, no intervalo de almoço da loja onde eu trabalhava. Vi que se aproximava uma grande prova - a Maratona do Rio de 85 - e sem pensar fiz minha inscrição. Seriam 42 quilômetros a serem vencidos, por mim que nem treinava (e pelo visto sequer pensava) mas fui! A longa batalha durou 5 h e 27 min, mas o orgulho que senti perdura até hoje. A partir dali, voltei a correr sem me importar com o que eles diziam. Fiz mais duas maratonas, superei algumas lesões e as pedras que surgiram no caminho. Só sucumbi diante das pedras que surgiram nos meus rins... Então, desisti outra vez.

Talvez eu tivesse quarenta e sete anos de idade quando escolhi a corrida, pela enésima vez!...

... Eu precisava descongelar o ânimo da infância e consumi-lo no dia a dia. Ainda dava tempo de fazê-lo, bastaria voltar a correr! Parte daquele moleque, que ia correndo comprar coca-cola, ainda hibernava dentro de mim: O menino-corredor soube se esconder do tempo-sorrateiro-feito-rato, que desistiu de procurar para roê-lo até o fim. Então, voltei para aquilo que sempre escolhi!

Talvez eu tivesse nascendo quando escolhi a corrida!...

... Talvez tivesse feito isso todos os dias, mesmo quando não corria, mas mantinha o menino-corredor escondido em mim. Hoje, sou eu que percorro a cidade dentro do menino - meu abrigo. Ignoro o que eles dizem. Ignoro o tempo roedor. Resisto o quanto posso, naquilo que escolhi... Escolhi a Corrida!

Abraços!

Bira.

Um-Corredor-Como-Você...

Corredor Disperso: Gif composto com recortes de imagens da internet - Bira, 23-04-2017.

Amigos!

Um-corredor-como-você acordou de manhã, tomou banho, café e saiu para treinar. Deparou com a cidade estirando tapetes de asfalto molhado de orvalho, para ele pisar. Uma brisa suave fez carícias em seus ombros enquanto os pássaros saudavam a manhã. Aquele ar renovado penetrou no seu peito, refrescou sua alma e animou sua largada... Então, pôs-se a correr e a aquecer feito o dia!

Um-corredor-como-você dobrou dezenas de esquinas e migrou entre os bairros, enquanto o sol se elevava e a manhã se perdia. Pouco a pouco, o calor expulsou o orvalho do chão. Gradualmente, o burburinho da metrópole abafou a cantiga dos pássaros. Logo, logo, o batuque das suas passadas não alcançariam mais os seus ouvidos. Muito menos os bipes do frequencímetro ou o pulsar do coração... É que uma orquestra confusa de buzinas, freadas e auto-falantes poluíram o dia. Feito um corredor, fora de forma, o dia começou a ofegar.

Um-corredor-como-você ignorou os problemas do dia e fez verter no suor os seus próprios problemas. Sentiu-se livre como o vapor que dele saía. Pegou carona no vento e, sem se importar, misturou-se à fumaça que no ambiente crescia. Fez parte do caminho por onde passou por eternos instantes. Cada passo que deu, configurou uma conquista de si mesmo ou da cidade:

-- Outra rua, outro bairro!... Novas descobertas na mesma metrópole e novos desejos no mesmo ser!... Desejou correr pelo mundo e essa utopia fez seus olhos brilharem!

Um-corredor-como-você esqueceu que enquanto corria seu corpo exauria e não queria mais parar. Correu até o cansaço da manhã. Depois, aplacou a sede na fome da tarde. Por fim, recuperou seu o corpo no sono da noite. Até que outro dia lhe acordou renovado:

-- Outra manhã, outro despertar!... Novas descobertas na mesma cidade e novos caminhos dentro e fora do ser!... Sem querer, fundiu todo o mundo na visão distorcida pelo balanço de outra corrida!

Um-corredor-como-você é condutor da esperança no olhar que une o mundo. Humano que é, ele pode até sorrir e sofrer no decurso do mesmo dia, mas sabe que tem sempre outra manhã a lhe esperar!

Abraços!

Bira.



Muro Pichado - composição com imagens da internet utilizando Gimp e Paint - Bira, 16-04-2017.

Correndo e Fingindo, Para Sobreviver.


Amigos!

---- Quem é esse moço que finge correr em meio ao caos da cidade? 

Correndo e fingindo ignorar o bandido que pode surgir
---- a qualquer momento ----
na garupa de uma moto anunciando: "Perdeu!"

Correndo e fingindo não ver os miseráveis
---- embaixo do viaduto ----
semeando lixo e regando com urina.

Correndo e fingindo não lamentar o picho do muro
---- à beira da estrada ----
nem o ônibus incendiado e a estação depredada.

---- Quem é esse moço que corre fingindo em meio ao teatro de caos da cidade?

Fingindo que o ar
---- que entra no peito ----
não leva impureza...

---- Correndo para não ver impureza nos olhos da plateia.

Fingindo que seu coração
---- de corredor sadio ----
só quer bater em paz...

---- Correndo para não ser mais um destruidor do próprio cenário.

Fingindo um sorriso na selfie
---- depois do treino ----
postado nas redes sociais...

---- Correndo para não ver que nas redes o fingimento é verdade.

---- Quem é esse moço que passa fingindo correr de verdade?


Diante daqueles que fingem sorrir tendo ao lado quem chore a verdade.
Sob as gargalhadas do sol que atraem nuvens de inveja.
Acima da crise que assola o país e congela as pessoas que não sabem correr...

---- Quem é esse moço que passa correndo e fingindo para sobreviver?


Abraço!
Bira.
Composição com de recortes de imagens - internet - 16-02-17.


Treino do Sol

Amigos!

O sol de meio dia derrama labaredas de luz sobre mim, que saí atrasado para correr. É domingo nas ruas da Penha, mas o calor aprisionou as pessoas em casa. Poucos carros competem comigo, no asfalto, e eu até posso me afastar um pouco mais do meio-fio. Minha imagem de corredor aleatório percorre as vitrines. Sigo, em forma de reflexo, de loja em loja. Percorro os blindexes das estações do BRT.  Subo o viaduto da Lobo Junior. Vislumbro a igreja da Penha, lá no alto, e um avião que vai pousar no Santos Dumont.  Ao meu lado o hospital Getúlio Vargas lança um olhar amarelado e eu agradeço aos céus esse momento... Estou vivo, com saúde, e posso correr até Copacabana.

Continuo meu trajeto passando em frente ao antigo Curtume Carioca. Meu couro expele uma salmoura de suor e protetor solar, que desce pela testa e invade os olhos. Tento secar o rosto com a camiseta, sem muito sucesso, e continuo... Subo rua, desço rua, faço curvas e deparo com o Campo do Olaria. O clube que já-teve-seus-dias-de-glória no campeonato carioca que também já-teve-seus-dias-de-glória. Lembro do meu vizinho que tinha adesivo do Olaria em sua vemaguete. Lembro do cracaço Afonsinho, dominando o meio campo, de uniforme branco com a tradicional faixa azul cortando o peito. Volto, logo, ao presente e percebo que minha garrafinha de água secou. Uma padaria surge, feito oásis: é hora de me hidratar.

Minha pulseirinha tecnológica vibra, em Ramos, anunciando que o nono quilometro já foi percorrido. Àquela altura, é possível continuar no "piloto automático", quando eu até esqueço que estou correndo. Só não posso descuidar e tropeçar nas calçadas irregulares da Rua Barreiros. De repente, dou conta de que não vi nenhuma viatura da polícia nas ruas, até ali. Fico preocupado: é época de ameaça de greve dos policiais militares, que não estão recebendo salário... Então penso: "Se o bandido aparecer, já estou correndo, basta acelerar!"

Uma placa imaginária de 11 km foi fincada na Avenida Brasil, logo na saída da Avenida Paris, em Bonsucesso. Meio dia se aproxima e meu ritmo está pouco acima de 5 min por quilômetro (5X1). Dessa forma margeio a Fundação Oswaldo Cruz e a Refinaria de Manguinhos. É fácil correr naquelas calçadas desertas. Encaro um trecho mais difícil entre Fábrica de Sabão Português e o Cemitério do Caju. Enfurno-me sob o elevado que vem da Ponte e termina na Rodoviária. "A Perimetral foi apagada daqui" - penso, ao parar num boteco e comprar água. Confiro meu ritmo médio: 5:05 min ao longo de 18 km. 

Tudo mudou, ali, na Avenida Rodrigues Alves. Agora, é possível avistar o céu azul no lugar da turva cobertura de concreto, que veio a baixo. Um calçadão de granito escovado margeia a estrada que se aproveita para lagartear ao sol. Escombros de alguns armazéns demolidos, no entanto, ainda não foram recuperados. Mesmo assim, nada faz lembrar a degradação do local, tempos atrás. Passam 1,5 km até a estrada mergulhar no Túnel Rio450. À flor do solo surge o Boulervad Olímpico, o novo cartão postal do Rio. Ali, o antigo Moinho Fluminense se transformou no moderno AquaRio - maior aquário da América do Sul, repleto de crianças. São mais 1,5 km, às margens dos trilhos do VLT, até chegar no Museu do Amanhã. Nesse percurso há turistas desembarcando dos cruzeiros. Eles são recebidos pelo imenso painel Etnias, de Eduardo Kobra, que interpreta a luz do sol em cores vibrantes. Os antigos armazéns reformados promovem eventos, atraindo mais movimento ao local. Uma feira de artesanato e músicos populares também tentam reter as pessoas. Não tenho tempo de observar os detalhes para não perder meu ritmo, e sigo. Quando paro, já estou na Praça XV comprando mais água no mercadinho das barcas Rio - Niterói. 

Entre goles ofegantes consulto meu tempo: média de 5:09 min por km. O peito infla e desinfla mais rápido. Ondas de calor distorcem as imagens no nível do chão. Resolvo que vou monitorar melhor meu ritmo nos próximos quilômetros e penso: "Se o meu ritmo cair, eu aborto a missão". Dito e feito: quando cheguei ao Aeroporto Santos Dumont, despenquei para a média de 5:12 e parei.

Copacabana ficou me esperando a oito quilômetros dali. Eu, que saí para correr com sunga de praia por baixo da bermuda, não daria um mergulho no mar, desta vez... Paciência... Recobrei o fôlego, caminhei até o metrô, mas não estava nem de longe decepcionado: Semana que vem eu volto pra fazer isso direito!

Abraços!

Bira.