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Um-Corredor-Como-Você...

Corredor Disperso: Gif composto com recortes de imagens da internet - Bira, 23-04-2017.

Amigos!

Um-corredor-como-você acordou de manhã, tomou banho, café e saiu para treinar. Deparou com a cidade estirando tapetes de asfalto molhado de orvalho, para ele pisar. Uma brisa suave fez carícias em seus ombros enquanto os pássaros saudavam a manhã. Aquele ar renovado penetrou no seu peito, refrescou sua alma e animou sua largada... Então, pôs-se a correr e a aquecer feito o dia!

Um-corredor-como-você dobrou dezenas de esquinas e migrou entre os bairros, enquanto o sol se elevava e a manhã se perdia. Pouco a pouco, o calor expulsou o orvalho do chão. Gradualmente, o burburinho da metrópole abafou a cantiga dos pássaros. Logo, logo, o batuque das suas passadas não alcançaria mais os seus ouvidos. Muito menos os bipes do frequencímetro ou o pulsar do coração... É que uma orquestra confusa de buzinas, freadas e autofalantes poluíram o dia. Feito um corredor, fora de forma, o dia começou a ofegar.

Um-corredor-como-você ignorou os problemas do dia e fez verter no suor os seus próprios problemas. Sentiu-se livre como o vapor que dele saía. Pegou carona no vento e, sem se importar, misturou-se à fumaça que no ambiente crescia. Fez parte do caminho por onde passou por eternos instantes. Cada passo que deu, configurou uma conquista de si mesmo ou da cidade:

-- Outra rua, outro bairro!... Novas descobertas na mesma metrópole e novos desejos no mesmo ser!... Desejou correr pelo mundo e essa utopia fez seus olhos brilharem!

Um-corredor-como-você esqueceu que enquanto corria seu corpo exauria e não queria mais parar. Correu até o cansaço da manhã. Depois, aplacou a sede na fome da tarde. Por fim, recuperou seu o corpo no sono da noite. Até que outro dia lhe acordou renovado:

-- Outra manhã, outro despertar!... Novas descobertas na mesma cidade e novos caminhos dentro e fora do ser!... Sem querer, fundiu todo o mundo na visão distorcida pelo balanço de outra corrida!

Um-corredor-como-você é condutor da esperança no olhar que une o mundo. Humano que é, ele pode até sorrir e sofrer no decurso do mesmo dia, mas sabe que tem sempre outra manhã a lhe esperar!

Abraços!

Bira.



Foto de arquivo pessoal editada - Bira, 16-11-16.


O Corredor de Longão


Lá vai o corredor de longão!... Assustando as pessoas quando descobrem que ele corre por mais de três horas seguidas, engolindo lentamente cada quilômetro, feito a jiboia que engole um boi. Costurando as ruas e os bairros, revisitando a nobreza de alguns e a degradação de muitos.

Ninguém conhece os lugares melhor do que o corredor de longão!... Ninguém possui amor tão intenso pelo chão onde pisa. Ninguém consegue fazer amor com a cidade como ele faz, tocando nas partes mais sensíveis da sua amada. Ofegando e gotejando, sobre ela, vapores e suores de prazer. É no sobe-e-desce das ladeiras e no entra-e-sai dos becos que ele é conduzido ao clímax explosivo de um retão. A seguir, desfalece satisfeito sobre a relva, acariciado pela brisa e envolto pelo céu.

Lá vem o corredor de longão!... Arrastando uma lufada de ar que ventilou toda cidade... Ah, se todos fossem como ele, dia após dia, aos milhares, aos milhões! Milhões de pernas inquietas, movimentando o ar. Os capilares de cada corpo serão como as ruas, onde os corredores de longão circulam feito seus próprios plasmas. Imagina milhares de cidades repletas de corredores no entorno de um mundo, plasmando energia!... Indo e vindo num longão sem começo, nem fim, nem direção, nem limites, nem fronteiras!

Lá vai o corredor de longão!...

Lá vem o corredor de longão!...

Nos capilares de um mundo ideal... Muito além das cidades... Dentro e fora dele mesmo, no tudo, no todo... Lá vai!

Abraço!
Bira.
(...) Sei que correr é muito mais do que seguir um trajeto. Correr é dar saltos quânticos que lhe transportam, no mesmo instante, para os lugares mais belos das dimensões ignoradas pelo homem manifesto (...)

Somos feitos de elétrons, surgimos e ressurgimos ao mesmo tempo em diferentes lugares... Ilustração: Bira.

Ninguém Tira O Que É Seu!

Amigos!

Dias desses, eu compartilhava as postagens deste blog no Facebook quando alguém teclou para mim:

-- Bira, admiro muito essa sua garra e me envergonho de não conseguir (correr)...

-- Não se envergonhe - respondi -- eu fiquei sem correr dos 27 aos 48 anos...

O papo não foi adiante, mas eu fui: levantei-me da cadeira para treinar mais uma vez. Enquanto corria, no entanto, a breve conversa povoou meus pensamentos. Lembrei-me dos 21 longos anos que não corri. Pensei nos motivos que tive e em tudo que fiz...

*          *           *

Era década de 80, tempo de Guerra Fria no mundo e fim da ditadura no Brasil. Foi na "década perdida da Economia" que surgiu o Rock in Rio e ressurgiu Leonel Brizola. Foi quando os peitos da Fafá de Belém preenchiam todos os pixels das telas da TV, ou das páginas masculinas da Revista Status. O Jornal do Brasil ainda sobrevivia à morte de sua diretora e presidente, a condessa Pereira Carneiro. Eu também sobrevivia, atrás de um balcão de uma loja de ferragens ou pintando letreiros nas fachadas de lojas. Eu não tinha dinheiro, mas mesmo assim me casei, melhor dizendo: mesmo assim consegui alguém para casar comigo. Eu não tinha instrução, mas mesmo assim lia o Jornal do Brasil, melhor dizendo: mesmo assim conseguia separar uns trocados para comprar aquele "jornal de rico". No subúrbio, onde eu ainda transito, só se consumiam jornais baratos e sangrentos. Para cada 100 exemplares de O DIA, vendia-se um do Jornal do Brasil.

Eu me julgava politizado, era brizolista. Desenhava, e escrevia coisas que ninguém lia - a não ser meu amigo Aribelto, o Beto. Trabalhávamos juntos em Duque de Caxias, e ele - meu chefe - começou a me encomendar poemas que recitava para as suas namoradas no carro. Colocava como fundo uma música romântica e as moças até choravam. No dia seguinte, Beto me contava, entusiasmado, tudo aquilo que rolou, e pedia:

-- Bira, faz um outro poema que eu vou tentar musicar e coisa e tal....

Eu ficava um pouco incomodado com a situação, mas o cara era meu amigo e eu cedia. Eram poemas melosos e ridículos, que faziam de mim um Cyrano de Berjerac de Duque de Caxias - onde Beto "atuava".

Foi nessa época que eu corri minha primeira maratona (1985) e continuei treinando corrida por mais dois anos. Não sei se estes cálculos estão certos... Certo mesmo, eram os cálculos dos meus rins: Várias vezes eu rolava no chão de dor e comecei a urinar sangue toda vez que corria. Tentei resistir, mas não deu e triste parei de correr.

Ressurgi feito elétron em pleno salto quântico duas décadas depois. Apaguei de mim todo o tempo que fiquei afastado da corrida, como quem recomeça a viver com a mulher que esteve afastado. Consegui!

Agora corro em percursos suburbanos escuros ou solitários com a mesma alegria de quem corre nos lugares mais lindos da cidade. Tenho paisagem própria para percorrer, não dependo da visão externa. Não me nego a correr com os amigos, não me nego a disputar as provas, não me nego a correr em qualquer condição. Sei que correr é muito mais do que mexer as pernas. Sei que correr é muito mais do que seguir um trajeto. Correr é dar saltos quânticos que lhe transportam, no mesmo instante, para os lugares mais belos das dimensões ignoradas pelo homem manifesto.

Já teve momentos em que correndo eu pensei comigo mesmo:

-- Caramba, Bira, já imaginou o tempo que você perdeu e tudo aquilo que teria feito se não tivesse se  afastastado da corrida?

Percebi, no entanto, que esse tipo de pensamento me trazia tristeza e sensação de perda. Então mudei a forma de pensar, e me respondi:

-- O que ocorreu comigo foi um salto quântico: no mesmo momento que eu estava em 1987, ressurgi em 2008, mas nunca deixei de ser corredor!

*           *            *

Gostaria de ter dito à minha amiga que ela também é feita de elétron, então que assuma essa condição. Absorva energia e mude de órbita. Não se prenda às limitações do passado. Se for necessário, apague o passado e salte! Se você quer, você consegue!... Ninguém tira o que é seu!

Abraços!
Bira.





Amigos!





Quarta-feira, 18:20h;
(três dias após eu correr a Maratona do Rio)...

Cheguei em casa, liguei o computador e fui direto para o Facebook. Eu queria ver as fotos de amigos na maratona, mas uma voz repentina interrompeu minha ação:

-- Pode parar!... Vai começar com essa história de internet de novo?... Vai ficar aí sentado diante da tela!... Levanta! Queremos correr!...

-- Quem está falando? - pensei, ao ver as caixas de som desligadas...

-- Somos nós, maluco, suas pernas... Vamos, leva a gente pra correr!

-- Danou-se! - continuei pensando intrigado -- Minhas pernas estão falando comigo e ainda me chamam de maluco, essa gíria carioca ridícula!

-- Ridículo é você, que tem 55 anos nas ventas e utiliza essa gíria pra falar com os amigos... E ainda me vem com essa... Não adianta, nós lemos seus pensamentos!... Levanta, vamos correr!... Se você não for, a gente vai e te deixa aqui!

-- Isso não é possível! - duvidei -- Como pode minhas pernas irem correr e eu ficar aqui??

-- Tá duvidando, maluco?... Logo você que vive postando coisas surreais no seu blog duvida dessa possibilidade?... - responderam as pernas com firmeza -- Quer apostar que nós vamos sem você??

Fiquei realmente assustado com tal possibilidade: Já pensou se minhas pernas desprendem de mim e se perdem pelo caminho?... Mas mesmo assim tentei argumentar:

-- Por que vocês não sossegam um pouco? Nós tivemos uma maratona difícil há apenas três dias... Lembra que a gente nem pensava em completar os 42 km, mas mesmo assim conseguimos! Lembra do estado que vocês ficaram naquela noite, e eu nem podia nem me abaixar! Lembra dos joelhos doloridos...

-- Claro que lembramos... - responderam meus membros inferiores, com ar de superioridade -- Mas também nos lembramos que na manhã seguinte já estávamos recuperadas... Esqueceu?

-- Mas pode não ser uma boa correr agora... Esse ano vocês sofreram com duas lesões, que eu nem gosto de repetir o nome. Corremos muito pouco... Melhor não ir com muita sede ao pote! Já revemos os amigos na maratona... Não é melhor ter cautela?

-- É melhor não ter preguiça, maluco! Levanta e vamo que vamo!

Desisti de argumentos e e fui correr. Dei 13 km para as minhas pernas se acalmarem. Voltei ao computador para fazer esta postagem, onde voltei a ouvir uma voz... Desta vez, no entanto, eram as caixas de som que estavam ligadas...  #

LEIA TAMBÉM:

Como a Corrida Dilui os Problemas? - O alívio causado pela corrida explicado por um cronista.

Onde Está a Beleza do Rio? - Um treinão solitário pelos bairros e ruas da periferia carioca...


Abraço!
Bira.



(...) Quando eu pensei: "Deve ser um desocupado ou mais um boa-vida! Se tivesse o que fazer não estaria correndo..." Fui pro bar, desanuviar de mais um dia estressante no trabalho e o corredor sumiu na esquina (...)

Montagem com foto pessoal e imagem da internet - Bira, 10-07-14.

Rua Turva, Corredor Radiante!


Amigos!

Quando o tempo fechou, a tempestade caiu e tudo escureceu... Um corredor radiante surgiu!

Quando negros eram os meus olhos e o teto do guarda-chuva, o corredor radiante refletiu sua cor no chão molhado do asfalto. Pouco se podia pensar debaixo daquela chuva. Era urgente buscar um abrigo. As ruas ficaram vazias de gente e de carro.

Quando o sol se escondeu, a rua ficou turva e tudo entristeceu... Um corredor radiante surgiu!

Quando eu pensei: "Deve ser um desocupado ou mais um boa-vida! Se tivesse o que fazer não estaria correndo..." Fui para o bar, desanuviar de mais um dia estressante no trabalho e o corredor sumiu na esquina. Um amigo alto falava alto e do alto de sua boca também chovia. Coisas de bar... Palavrões provocavam risos nas piadas, nas críticas ao governo, provocavam a ira.

Quando a mesma conversa abrangeu futebol e igreja, foi melhor tomar mais um copo de cerveja!

Quando eu pedi outra gelada não percebi que a chuva parou. O céu abriu, mas já era noite e pouca coisa ainda brilhou. Pessoas e carros voltaram a circular entre as sombras. Vira-latas voltaram a disputar as sacolas de lixo no beco escuro.

Quando o bar esvaziou, a surpresa surgiu na figura do corredor radiante que ali entrou!

Quando o corredor pediu água sem gás, ele queria repor o líquido que escapava de sua testa. Quis sorver toda a garrafa em um longo gole, mas interrompeu a ação para respirar. Era visível a energia que fluía de seu corpo. Era visível a alegria que seu olhar distribuía. Antes que o balconista lhe perguntasse, ele respondeu: "Coloquei mais 25 km no saco!". Fiquei admirado, quis saber como, puxei assunto.

Quando o corredor radiante me convidou eu fui, no dia seguinte, e me pus a treinar!

Quando o sol renasceu por detrás das montanhas distante, fui apresentado a um monte de gente radiante. Fui fisgado no mesmo segundo e mergulhei naquele mundo. Primeiro sofri, depois perdurei. E quando me desapeguei de conferir os resultados, já se passaram meses e meses e lá estava eu, correndo no solo molhado...

Quando o tempo fechou, a tempestade caiu e tudo escureceu... Um corredor radiante surgiu, e era EU!

>> Eu Precisava Correr na Chuva! - Correr na tempestade pode ser perigoso... e excitante!

>> O Corredor, A Cidade e O Lixo - Maus hábitos e desordem não podem impedir a corrida!

Abraços!
Bira.