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Amigos!

O site Corredores Anónimos, de Portugal, pediu que eu enviasse um relato do Treinão do Brasil. A postagem saiu ontem, 23/09/15, porém o texto adaptado para Portugal também sofreu alterações. Sendo assim, resolvi postar aqui a versão original, a seguir. Trata-se de um resumo de nosso evento, o primeiro treinão simultâneo do Brasil e do mundo.


Gislaine Gobbo era a única corredora de uma cidade com 16 mil habitantes, até que decidiu aderir ao Treinão e mobilizar Sertanópolis. A ex-jogadora e treinadora de basquete agora tem projetos esportivos voltados às crianças do interior paranaense: Felicidade! ( foto de Tiago, Sertanópolis).



COMO SURGIU O TREINÃO DO BRASIL

A ideia de fazer o Treinão do Brasil surgiu no momento mais obscuro da minha, digamos, “carreira de corredor amador”. Em junho deste ano, eu estava totalmente afastado das corridas por conta de uma fascite plantar. Comecei a ganhar alguns “quilinhos” e, aos 55 anos de idade, já não podia mais me gabar de ter “corpo de 25 anos”. Meu blog (birananet.com) de crônicas sobre corrida ficou praticamente parado, já que eu estava sem correr e pouco escrevia. Para piorar as coisa eu adoeci. Tive zoster, uma doença que afeta pessoas com mais de 50 anos, que tiveram catapora na infância. É que o vírus da catapora fica “quietinho” no organismo e se aproveita para “contra-atacar” em um momento de baixa imunidade.  Minha baixa imunidade foi causada pelo stress, resultante de problemas com obras na minha residência. Como não estava mais correndo, acumulei stress e fiquei doente.

Já livre do zoster, certo dia eu estava na internet observando meus amigos corredores extremamente felizes nas fotos que postavam no Facebook. Naquela hora pensei que eles poderiam fazer um grande treinão simultâneo em todo país. Acreditei que o Facebook poderia difundir a ideia e consultei alguns amigos corredores para ver o que pensavam. De cara, tive um retorno totalmente positivo, e me animei. Fiz algumas postagens no blog e começaram a surgir adesões de todo país. Alcançamos 48 cidades brasileiras, incluindo as principais capitais do Brasil.

Nosso treinão, que teve caráter informal – pois foi feito pelos próprios corredores, teve como tema “Correr Pela Paz”. Somamos mais de 2.500 corredores vestidos de branco em todo país. Em algumas cidades chamou atenção da mídia, sendo divulgado nas rádios, jornais e TV. Foi a primeira vez, provavelmente no mundo, que se fez um treinão com largada no mesmo momento. Uma corrente de pensamento pela paz, foi feita a cinco minutos da largada.





Corredores posam na Praça da Bike, em Ribeirão Preto - SP, mais um local de Treinão.


Em algumas cidades o evento ganhou aspecto parecido com as corridas oficiais. Teve barracas, hidratação ao longo do percurso e distribuição de frutas. Em outras teve aquecimento ao som de zumba, ou orientado por professoras de fitness. Na grande maioria dos locais, no entanto, o treinão foi mais simples e usual. Todos os participantes e organizadores, no entanto, desejam repetir a dose em 2016. Eles terão mais tempo para avaliar o que pode ser feito para melhorar o evento.

Resumindo, a primeira edição do Treinão do Brasil foi algo marcante! Foi a primeira vez que corredores de rua de um país com dimensões continentais fizeram um movimento pacífico, sem caráter político ou religioso, apenas esportivo. A real dimensão deste fato só poderá ser medida no futuro. As imagens, fotos e vídeos, estão sendo colhidas e serão divulgadas brevemente. Os organizadores dos treinões de cada cidade (muitos deles que antes só se comunicavam pelo WhatsApp e Facebook) já planejam se encontrarem e reforçarem seus laços de amizade. Entre esses organizadores há corredores do mais variado perfil, desde atletas renomados até uma dona de casa. O Treinão do Brasil também promoveu esse contato inusitado, ao juntar corredores diversificados.

Tudo isso aconteceu em pouco mais de dois meses!

Abraço!
Bira.

"Além do Blog" é um desafio para descobrir novas maneiras para contar as histórias deste site. Nessa brincadeira eu posso mudar o ângulo ou a interpretação de uma cena. Refaço imagens, recrio, cresço e pavimento o blog... 

A história a seguir, no entanto, eu não ouso mudar sequer uma frase. Ela foi contada na postagem Gilmara Encontra Gilmara  que me emociona sempre que leio e o mesmo se dá com muitas pessoas. Vou repeti-la na íntegra no final deste texto, mas antes quero acrescentar alguns fatos... 


Na montagem, as alegrias de Gilmara corredora e passista.



Moraes posava com outros corredores imitando Usain Bolt, até que um deles percebeu: "Pô, estamos fazendo gesto a toa, não tem ninguém tirando foto agora!": A gargalhada foi geral"

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Amigos!

Pudera as torres repetidoras da Serra do Mendanha captar e transmitir os bons fluídos dos 120 corredores que ali chegaram! 
Quem dera, toda aquela alegria se espalhar sobre a cidade e recuperar o Espírito Carioca! 
Espírito que não morreu, mas que nesses tempos de vandalismo, hiberna feito corredor lesionado... 
Éramos todos cariocas no sorriso e no olhar. 
Nosso olhar atravessava as brechas da mata, captando do alto uma beleza alternativa e distante do mar... 

Sim... Éramos tão cariocas quanto a louríssima Fabiani Dutra, a gaúcha que reside em São Paulo, mas que não perde uma oportunidade de viajar 400 km para rever e correr com seus irmãos de espírito. A auto-denominada "Gaúcha-Carioca" era apenas uma das incontáveis mulheres que não paravam de sorrir e tirar fotos para o Facebook.


 Parte dos corredores na tradicional pose em frente às antenas... Foto de Sérgio Pessoa.
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Quem visse apenas a foto daquela gente, de vestimenta e alma colorida no alto da serra, poderia se enganar e achar que foi fácil chegar ali. Nada disso, partindo do Largo do Mendanha, às sete e trinta da manhã, os corredores enfrentaram os inicias dois quilômetros de asfalto, somados a outros sete de uma subida muito rigorosa e cada vez mais íngreme. Não bastasse isso, eles encararam um piso de falsa-terra-batida, onde o barro se mistura com pedras no chão acidentado. Foi quase impossível não interromper a corrida nos  trechos mais duros - hora recuperar o fôlego caminhando um pouquinho. Impossível também foi ignorar o ponto de hidratação natural, a 1.500 metros da chegada. Mendanha é exigente, tanto para os mais preparados quanto àqueles que apenas caminham. Mendanha, no entanto, é compensador: transforma seus esforços na alegria que devolve com a mesma medida...




Lindalva e Claudia Figueiredo, mãe e filha encaram juntas o duro trajeto nas vérperas do Dia das Mães... Foto de Sergio Pessoa.
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O vento da serra seca as camisas encharcadas e as faz tremular. 
Quando frescor acaricia o corpo e a alma, o ambiente é propício aos sentimentos mais puros e belos,
Expressos em sorrisos, abraços e confraternizações... 
As lembranças de um amigo corredor, que se foi, se transformam em oração coletiva.
Alianças de noivado são trocadas entre aplausos e sorrisos... São sorrisos e mais sorrisos!...
As antenas do pico isolado nunca viram, de tão perto, tanta gente!
Gente 'antenando' os bons fluídos que as próprias antenas adorariam captar e retransmitir!...

Depois que eles tiraram todas as fotos e bateram todos os papos, começaram a voltar. Parece até que todos os santos empurravam, cada um, serra abaixo. Particularmente, pensei o seguinte enquanto descia: "Sem essa de que pra-descer-todo-santo-ajuda.. Santo que ajuda a descer não é santo!...". Então foi preciso ter cuidado com os joelhos ou com um suposto tombo... Mas graças aos verdadeiros santos, todos chegaram ilesos!

Na chegada, a praça do Largo do Mendanha se fez generosa aos corredores. Ela ofereceu seus bancos, suas sombras e uma bica de água fresca. Um outro ser generoso foi ao sacolão e trouxe frutas, guaravita, bolo e pão doce... O cuidado, então, passou a ser não falar de boca cheia...

Um carro buzinou, e dentro dele três corredores acenaram se despedindo. As mulheres trocaram os últimos beijinhos e abraços do dia. Outros se despediram e o Largo do Mendanha foi ficando cada vez mais quente e menos colorido... Foi o fim de mais um treinão inesquecível!



Vídeo I - Entrevista e Concentração de Largada.



Vídeo II - Da largada à chegada nas Torres.


 Link para conferir as fotos do evento no Facebook:

https://www.facebook.com/events/606363919455744/

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Abraços!
Bira.




(...) Aumentei meu ritmo depois de cruzar a esquina. Na farmácia, uma moça que cheirava sabonetes interrompeu o gesto quando percebeu meu vulto do lado de fora. Apareci e sumi em frações de segundo, deixando uma imagem difusa a ser preenchida com a imaginação(...) 



Eu Faço o meu Tempo!


Amigos!

Quando acordei de manhã, eu ainda tinha 54 anos e uma dor de garganta muito chatinha, que prometia se agravar durante o dia. Apliquei spray de própolis nas amídalas e decidi sair para correr. Quando calcei o tênis, a atitude fez minha idade cair de imediato para 48, a mesma do período que eu decidi voltar a correr.

Fora de casa deparei com um céu sem manchas e uma avenida engarrafada onde as pessoas não tinham escolha, a não ser me ver passar. Não dava para correr rente ao meio-fio e eu me equilibrei pela calçada irregular. Atrás dos óculos escuros escondi o orgulho de quem corre. Embriagada de suor, minha camiseta se agarrou ao corpo. Imitando o suor, minha idade também se esvaiu: decresci em minutos para uns 38 anos(!), ganhei mais disposição e segui em frente...

Manhãs comuns têm gente chegando apressada na estação do metrô, tem apito de guarda no cruzamento, avisando que o sinal mudou de cor, e têm sombras compridas bailando no chão. Volta e meia pode até passar um corredor como eu - eles não são muito frequentes no subúrbio, mas passam... Aumentei meu ritmo depois de cruzar a esquina. Na farmácia, uma moça que cheirava sabonetes interrompeu o gesto quando percebeu meu vulto do lado de fora. Apareci e sumi em frações de segundo, deixando uma imagem difusa a ser preenchida com a imaginação. E a moça imaginou que eu tivesse uns 25 anos, mas não estava de todo errada: Era assim que eu me sentia àquela altura.

Se a cada trecho eu ficava mais jovem não era o corpo que mudava. Eu possuía os mesmos parcos cabelos grisalhos e o mesmo rosto cada vez mais demarcado. A mudança era interna, instantânea e inexplicável. A mudança também era única porque dependia do contexto momentâneo: engarrafamento, apito do guarda, moça da farmácia, etc... Peças aleatórias que podem surgir enquanto se corre numa manhã comum. Não, não é contradição mostrar elementos externos para explicar "mudanças internas" ou "inexplicáveis". O fato é que não há limites para quem se movimenta.

Continuei meu trote pelo bairro até que subi uma passarela para cruzar a Avenida Brasil. Já do outro lado, vi alunos concentrados em frente ao portão de uma escola, esperando a sirene tocar. Dois deles se aproximaram para brincar de correr ao meu lado. Aceitei a proposta e, por cerca de 50 metros, brinquei de correr com a dupla que aparentava ter uns 14 anos, cada. Assumi essa mesma idade até a próxima esquina e me despedi dos garotos com tapinhas de mãos. Segui migrando no bairro e no meu próprio tempo até o treino acabar - se é que esses treinos acabam...

Fui trabalhar sem dar conta de que a garganta havia parado de doer. Perceber que eu faço meu tempo era bem mais importante que isso!

Abraços!
Bira.


(...) Enquanto eu corria, o céu azul estava ali. Ele abrigava passarinhos graciosos, pipas coloridas, urubus de voo sereno, nuvens robustas e um avião que vai para New York (...)

Montagem com recorte de foto pessoal e a imagem difusa do Shopping Via Brasil (Google Maps)...

Como a Corrida Dilui os Problemas?

Amigos!

Bastou que eu voltasse a correr para o mundo se mexer à minha volta. Pessoas, carro, árvore, casa, chão... O chacoalhar do movimento mistura tudo no olhar. Enquanto se corre, não dá para detalhar as imagens. Os sentidos se voltam à preservação da integridade física: A visão percebe o chão que está próximo ou a cinco, dez, vinte metros à frente. Ela atenta aos carros que surgem na esquina, à pipa voada que arrasta uma criminosa linha com cerol... A audição de um corredor, nas bordas do trânsito, está alerta ao barulho de um caminhão que se aproxima fora do campo da visão. O tato dos pés, mesmo protegidos, percebe o piso num trecho irregular, garantindo equilíbrio.

Neste estado de alerta cruzei a esquina e deparei com o Otimismo. Ele não tinha forma nem educação. Adentrou invisível pelas minhas narinas, invadiu o meu peito e, pela milésima vez, converteu minh'alma. Era mais um daqueles momentos em que todos problemas se tornam solúveis... Tentei me portar friamente e analisar o fato, pensando comigo mesmo:

- Como pode a corrida diluir os problemas mais difíceis?...

Foi quando um caminhão betoneira, mexendo concreto, quase parou ao meu lado. Na retenção do trânsito, em frente ao Shopping Via Brasil, eu sorri - achando que o fato era uma resposta velada à pergunta que eu acabara de fazer a mim mesmo:

- A corrida dilui problemas feito betoneira misturando concreto. Enquanto se corre, o olhar confunde os objetos (pessoas, carro, árvore, casa, chão e etc.) nas ilusões de ótica; o otimismo invade a quem o percebe sem entender como isso acontece... É que tudo perde a identidade individual. Tudo se mescla e integra um só elemento. É nessa hora, aparentemente confusa, que a mente descobre as soluções mais simples para os problemas da vida. É quando os problemas e as soluções se apresentam ao mesmo tempo, e se neutralizam, no universo indistinto das imagens difusas. Enquanto se corre, o mundo é uma betoneira sem limites circundada pela ilusão azul do céu...

Enquanto eu corria, o céu azul estava ali. Ele abrigava passarinhos graciosos, pipas coloridas, urubus de voo sereno, nuvens robustas e um avião que vai para New York... Cada uma dessas coisas aparentando serem objetos distintos, mas não eram, pois eu estava em movimento, vendo tudo se mesclar no meu entorno - otimista e diluído num universo indescritível...

Voltei!

Abraços!
Bira.


"(...) E Antônio Carlos lembrou que era atleta e às duas da madrugada, entre as esculturas de anjos e os sombrios e ciprestes, pôs-se a correr no campo dos mortos(...)"


Correndo no Cemitério


Montagem com foto pessoal de Antônio Carlos de Carvalho correndo no Cemitério de Verano, em Roma.

Amigos!

O frio intenso, da madrugada, circulava pelas ruas desertas de Roma e tinha um único companheiro: o brasileiro Antônio Carlos de Carvalho. Era março de 1993 – mês de inverno rigoroso e temperaturas tão baixas quanto a postura de cabeça daquele caminhante noturno, pelos arredores do Cemitério de Verano. Se a cidade dormia tranquila, Antônio não tinha a mesma sorte. Suas preocupações espantaram seu sono mais uma vez e caminhar pela noite foi um jeito de tentar resgatá-lo. Deprimido e se sentindo só, apesar de residir numa casa com mais oito brasileiros que, como ele, buscavam emprego em Roma. O ambiente na casa não era bom, melhor a companhia do frio. Alguns de seus amigos se drogavam ou ficavam embriagados e ele só tinha o dinheiro suficiente para pagar mais um mês do aluguel que dividia. Se não arrumasse biscates logo, voltaria frustrado para o Brasil onde ficaram esposa e filho.

Ao seu lado, o muro alto e imensamente longo do cemitério parecia intransponível. Perdido nos pensamentos Antônio caminhava e olhava para a parede de tijolos expostos, até que surgiu uma parte de muro quebrada, formando um acesso improvisado. Transpôs a passagem e deparou com ruas lisas e desertas, circulando e entranhando as quadras de túmulos. O brasileiro de São José do Goiabal, interior mineiro, não teve medo de assombração - ele já possuía seus próprios fantasmas... Lembrou que era atleta e às duas da madrugada, entre as esculturas de anjos e os sombrios e ciprestes, pôs-se a correr no campo dos mortos.

ONZE ANOS ANTES

Estamos maio de 1982. É manhã de um domingo de sol no bairro do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo. Os funcionários do Grupo Santista chegam afoitos para o campeonato de atletismo da empresa, no complexo esportivo situado atrás da fábrica de tecidos. Entre eles está o jovem Antônio Carlos, que fora ali, apenas para jogar futebol. Ao chegar, no entanto, viu vários corredores se preparando para iniciar uma competição de pista. Curioso, aproximou-se e perguntou se poderia participar. Poderia; e sem nenhum preparo ganhou as duas corridas, de 1.500 e 3.000 metros, além de um convite para compor a equipe de corredores da Santista, feito por um impressionado treinador. No ano seguinte, o atleta já obtinha bons resultados nas competições e, certo dia, estava treinando no Parque Piqueri, quando avistou a equipe de corredores do Corinthians. Ousou se aproximar e pedir para fazer parte. Como resposta, o rigoroso treinador José Roberto lhe encarou e disse:

- Com nós você vira atleta ou morre! - para riso geral.

Tal resposta soou como um incentivo para Antônio Carlos. Era sua oportunidade de treinar com grandes atletas. Estaria entre os feras!... Mas foi logo apelidado de Cheira-Meia, já que era o último da fila nos treinamentos e competições. O Cheira-Meia continuou ali, ganhando experiência entre seus pares da elite. Certo dia, o técnico aplicou um treino que envolvia toda a equipe. Ao todo seriam percorridos 18 km na pista, da seguinte forma: Os primeiros 9 km seriam corridos no ritmo de 4 min. por km (4X1) e os 9km finais, no ritmo de 3min. por km (3X1). A cada 3 km, os atletas teriam um minuto de intervalo para recuperação.

A largada foi dada com toda a equipe e Cheira-Meia assumiu o lugar que lhe cabia, no final da fila. Ao término da primeira etapa, Cheira-Meia continuava na rabeira, mas sentia que estava bem e não quis se precipitar, seguindo na retaguarda. Quando o treino atingiu os 3.000 metros finais, o desgaste dos atletas já era evidente. Cheira-Meia simplesmente resolveu passar um a um, deixando para trás até quem tentou resistir. Seu técnico sorriu percebendo que o atleta,  nas últimas voltas, havia rodado muito abaixo dos 3X1 estabelecidos. A partir de então, o Ex-Cheira-Meia ganhou respeito geral, sendo convidado para todas as provas e torneios onde estaria a equipe.

Ao entrar para a elite, Antônio Carlos participou de corridas na Capital e Interior paulista, além do Sul do Brasil. Ganhou prêmios e patrocínios em consequência de um programa de incentivo ao esporte do Governo Sarney.  Somou esses rendimentos ao salário percebido na Santista e pôde se casar, em 1985. Cinco anos depois, com a troca de governo o programa de incentivo foi cortado e ele figurou entre os mais de 200 atletas órfãos. Não seria possível sobreviver em São Paulo, em 1992, mantendo mulher e filho, com os pífios dois salários mínimos que recebia na Santista. Enquanto a ministra Zélia Cardoso de Mello assustava o Brasil com o confisco da caderneta de poupança, Antônio abarrotou suas malas e partiu com a família de volta para João Molenvade, cidade vizinha à São José do Goiabal - onde nasceu.

Em João Molenvade, tentou vender pastéis e sucos de fruta, enquanto prestava concursos públicos para vários órgãos, sem obter sucesso. Formou um grupo de corredores com objetivo de atrair jovens e crianças carentes, denominando-o  ACORP - Associação de Corredores de Pista e Rua. As alegrias da corrida pelo interior, no entanto, não pagavam dívidas. Foi quando, no início de 1993, Antônio decidiu vender sua moto e comprar passagens para Roma, onde tentaria arrumar trabalho e dinheiro.

Antônio chegou à Itália com o dinheiro suficiente para três meses de aluguel. Economizava ao fazer refeições gratuitas na Caritas de Roma. Permaneceu dois meses em frente às lojas de materiais de construção, se oferecendo como ajudante de pedreiro, sem nada conseguir. Quando não estava ali, perambulava pelas ruas para aprender o idioma, já que na casa em que morava só havia brasileiros. Se o dinheiro não lhe tocava às mãos, via o tempo escorrer entre seus dedos. Quando o sol de Roma se deitava uma lua deprimida surgia diante de seus olhos trazendo o medo, a insônia e a depressão. De repente, o muro quebrado do cemitério lhe convidou a entrar e deparar, com a inusitada pista. Só lhe restava correr pelo campo santo e tentar exumar as emoções de seus melhores dias. Mesmo que fosse duas horas de uma madrugada fria. Mesmo que seu público visível fossem as imóveis estátuas e o invisível não pudesse se manifestar. Mesmo com tudo isso, Antônio Carlos de Carvalho estava de volta ao atletismo!

... Continua na Parte II

- Link para conferir as três postagens desta série Antônio, Boca e Coração!: 
http://www.birananet.com/search/label/Antonio%20-%20Boca%20e%20Cora%C3%A7%C3%A3o


Abraços!
Bira.


(...) Já paguei três meses de musculação e não frequentei nenhum dia. Sei que estou perdendo dinheiro, mas hoje eu quero é correr e passar por ruas onde nunca pisei (...)


Cristo do Subúrbio, montagem com fotos da internet - Bira, 28/10/15.

Onde está a Beleza do Rio?

Amigos!

Embora precise, eu não conseguiria malhar dentro de uma academia nesta manhã tão clara. Por mais amplo que fosse o janelão da academia, eu me sentiria recluso. Depois de ter passado a noite fria embaixo do edredom, agora tinha um sol me convidando para correr.

Esta manhã de inverno possui ar fresco e nenhum chamusco de nuvem maculando o azul do céu. É certo que vai esquentar, mas os raios solares ainda provocam sombras enviesadas no chão. Já paguei três meses de musculação e não frequentei nenhum dia. Sei que estou perdendo dinheiro, mas hoje eu quero é correr e passar por ruas onde nunca pisei. A sensação de estar perdido, enquanto corre, aguçam os sentidos. Provoca insegurança não saber o que surgirá depois da próxima e inédita esquina. É preciso ficar atento, e isto aumenta a percepção do mundo ao redor.

O subúrbio do Rio não tem mar nem a chamada “gente bonita” que desfila de biquíni ou bermudão. As calçadas não têm pedras portuguesas e alguns terrenos viraram lixão. Quando saio de casa, em Irajá, para correr meus longões, a tendência é seguir em direção ao Centro e Zona Sul.

- Pelo menos posso encerrar o treino dando um mergulho no mar e bebendo água de coco - penso.

Mas hoje farei diferente: Para onde vou?... Não sei.

Optei por seguir na contramão do metrô, de Irajá até pouco antes da estação Colégio. Adentrei numa rua à esquerda, achando que estaria seguindo para Rocha Miranda, mas abandonei o curso na próxima esquina. Algumas novas mudanças de trajeto e percebi que não sabia mais onde estava (que beleza!). O cronômetro deveria estar marcando uns 20 minutos e eu já “me perdera”. Vibrei, enquanto um vira-lata faminto, sentado na calçada, sequer me via passar.

Correndo no asfalto, rente ao meio-fio, percebi que a COMLURB passou por ali, deixando a rua limpa... “Até quando?”, pensei. Diante dos muros pichados, mal construídos ou sem reboco, as pessoas desprezam a limpeza das calçadas jogando tudo no chão.

- Onde está a beleza do subúrbio? - me perguntei.

Mais uma esquina e dei de cara com a estação Coelho Neto do metrô. Já sabia de novo onde pisava e prossegui no sentido Pavuna. Cruzei sob a Av. Brasil e me embrenhei as ruas de Acari. Não dava para me perder ali, mas poderia seguir para a Baixada. Margeei um rio largo, poluído e assoreado, um conjunto residencial de prédios populares e a linha férrea num trajeto de uns cinco quilômetros. Dentro do rio vi urubus disputando uma “refeição”, e me perguntei:

- Onde está a beleza da periferia?

Se por um lado, o solo não apresentasse tanto atrativo, por outro, a luminosidade do céu aumentava e dava mais vida ao azul. Nesses três quartos de hora vi três aviões passarem, rumo ao Galeão, sem nuvens para perfurar. Mantive o ritmo moderado das passadas (uns 10km/h) e minha respiração estava tranquila. A apenas quatro dias da Meia Maratona não se deve forçar.

Não devia faltar muito para chegar a Pavuna, quando o longo muro da estrada de ferro recuou, revelando uma cancela que me deu a opção de virar à esquerda. Uma placa dizia ser caminho para Anchieta. Aceitei a sugestão e experimentei de novo a sensação de alerta – em que bairro eu estava?

Mantive-me na estrada onde corre o trânsito para não entrar em terreno hostil. Passei rente a uma favela e cruzei uma área industrial. Vi barraca que vendia pão-com-“linguisa” na frente duma fábrica; um catador de garrafas; uma égua encardida amarrada no pasto; uma sucata de carro incendiado...

- Onde está a beleza?...

Mas não deixo de lembrar um sabiá ciscando insetos no gramado e um belo casal de galinhas d’angola que poderia ser um despacho vivo. Mais adiante galinhas caipiras eram criadas soltas numa área mais bucólica. Esquinas passavam e o trânsito ficava intenso, até que desembocou num pequeno shopping que tinha o nome do bairro: Guadalupe. Olhei pro relógio que marcava pouco mais de uma hora de treino e pensei:

- A Av. Brasil passa por aqui, melhor voltar por ela.

Um transeunte me indicou uma rua à esquerda e eu segui. Antes de chegar à Brasil, descobri uma pista de caminhada que margeia um rio naquele local, da mesma forma que ocorre na Vila da Penha.

Na volta pela avenida, outros quatro aviões passaram, desta vez no mesmo sentido que eu. De Guadalupe à Irajá, absorvi barulho e gás carbono em níveis aparentemente suportáveis. Depois de passar em frente ao CEASA, abandonei a aquela via e corri mais uns quatro quilômetros nas ruas de Irajá. Encerrei o treino (de 1h 56min) e entrei no sacolão para comprar couve, conforme o pedido de minha mulher.

Qualquer dia desses voltarei a percorrer esses recantos do Rio onde a beleza não salta aos olhos. Onde o esvaziamento econômico atirou suas vítimas e encobriu o encanto daquele povo. Quero acreditar que beleza da periferia está apenas encoberta, reunindo forças para brotar dos escombros. Um dia ela vai ressurgir, bem antes que se cumpram as promessas de ressurgimento do Redentor. Se o Redentor continua aprisionado nas páginas do Livro Sagrado, onde está exilada a beleza do subúrbio? Se o subúrbio faz parte do Rio, onde está a beleza do Rio?

(Texto reeditado e modificado em 28/10/15)

Abraços!
Bira