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Mostrando postagens com marcador Oito Histórias Seleção 8 Anos. Mostrar todas as postagens
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(...) A Providência Divina que se apresenta nos trechos mais difíceis da prova e socorre os corredores esgotados, e os conduzem até a linha de chegada (...)

8 Poemas (de Corrida!) - Seleção 8 Anos!

Amigos!

Ninguém precisa ser poeta para fazer poesia, basta sair para correr e abrir os olhos que um poema surgirá... Experimente!

Ninguém precisa correr nas paisagens mais belas, da Cidade Mais Bela, para encontrar um poema. Nesses oito anos de estrada, já deparei com poemas à beira do mar ou diante de um valão... Acredite!

Corra na Zona Sul ou na Baixada e descubra que a beleza reside nos seus sentimentos. Depois revele o que viu... Arrisque!

Em oito anos de blog eu arrisquei alguns poemas, dos oito que trouxe para essa coletânea... Confira!

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1º Lugar: Então Vais, Homem Água!

Quando um amigo, pelo Facebook, pediu que eu escrevesse sobre Hidratação, eu lhe disse que era leigo e só poderia fazê-lo de "forma poética"... Falei isso por falar, sem imaginar que fosse possível escrever sobre um assunto técnico, na forma de poesia... Mas foi!.. A postagem "Então Vais, Homem Água!" apresenta um poema exaltador, escrito na segunda pessoa, porém atual... Só lendo:
Confira!



Na imagem a corredora Gilmara Maciel cuja história fez grande sucesso no blog...

Seleção 8 Anos: 8 Histórias de Corredores!

Amigos!

Vez ou outra eu conto a história de corredores de rua aqui. Eu não utilizo nenhum critério para isso. O corredor não precisa ser famoso ou meu amigo. É tudo uma questão de oportunidade.

Escrever sobre as pessoas é sempre um desafio no qual o protagonista precisa estar disposto a revelar detalhes de sua vida. São esses detalhes que fazem o leitor se identificar com a história e desafiam o escritor.

Contar histórias pessoais talvez seja o maior desafio de quem escreve. Revelar os dramas de modo a trazer quem lê para a pele do personagem, criar empatia e despertar admiração.

Selecionei 8 histórias, entre todas que contei, para comemorar 8 anos deste blog. Confira os resumos e clique na imagem para ler os textos completos:

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1º Lugar: Multi-Gilmara (ou Gilmara Encontra Gilmara).

Em junho de 2012, eu decidi fazer a postagem sobre Gilmara Maciel. Até então, eu sabia muito pouco sobre ela, mas queria brincar com o fato de ela ser corredora e passista. Enviei-lhe um e-mail com algumas perguntas do tipo: "Como e por que você começou a correr?"... Até aí tudo bem, mas quando as respostas chegaram eu falei para mim mesmo: "E agora?... Como eu vou me virar para escrever essa história?" O resultado foi uma postagem emocionante e surpreendente, até para mim que estava escrevendo... Confira!


2º Lugar: Todas as Idades de Lindalva...

Ao saber que a Lindalva Figueiredo iria completar 70 anos, quis escrever sobre o fato. Por telefone ela relatou sua vida, antes mesmo de migrar do interior Pernambuco para o Rio de Janeiro, em 1970. Esse texto que conta a história da atleta que começou a correr aos 64 anos ganhou as páginas do Pulso (Jornal O Globo) para a minha alegria... Confira e saiba porque!



3º Lugar: As Aventuras... Parte II (História do Corredor Antônio Carlos de Carvalho).

Radicado em Roma, o mineiro Antônio Carlos organiza anualmente uma corrida e traz italianos ao Brasil, para conhecer a pequena São José do Goiabal e suas crianças carentes. Promove "adoções à distância" e mantém a Casa de Miguel, construída por ele, onde as crianças recreiam e praticam esporte... Mas isso é apenas o ápice da odisseia de um atleta que deixou o Brasil para buscar um lugar ao sol na Itália... Confira!

4º Lugar: O Diário de Corrida de Zim.

Quando eu soube que o corredor e amigo Erivaldo Zim foi acometido de problemas de saúde, quis prestar uma homenagem e escrever um pouco da sua história. Propus aos seus amigos mais próximos que fizéssemos um treinão, juntássemos bons fluídos e mostrássemos o quanto Zim é querido. Todos concordaram e coube ao próprio Zim organizar o treinão. A postagem também foi em grande parte "escrita" por Zim, pois conteve trechos de seu Diário de Corrida... Confira!

5º Lugar: Moraes Runners Somos Nós!

Moraes é um dos corredores de rua mais conhecidos do Rio de Janeiro. Figurinha carimbada nas provas e treinões, onde além de medalhas coleciona amigos. Certa noite lhe liguei, para que contasse como começou a correr e o que fazia antes, visando escrever postagem. As surpresas vieram, primeiramente para mim, na bela história que repassei... Confira!


6º Lugar: Vannucci, Filma Eu!!!

Para escrever a postagem sobre Vannucci Jr. (blog Corrida Rústica) eu levei um bom tempo. Primeiro mandei algumas perguntas, respondidas por e-mail, mas aquilo não seria o suficiente para uma boa postagem. Minha intensão não era propriamente escrever sobre seu passado, mas sobre a história que ele está traçando no presente. Então fiquei enrascado, até que me lembrei de um telefonema que recebi e tudo se resolveu... Confira como!

7º Lugar: Genivaldo do Tênis.

Tive a ideia de escrever sobre ex-corredores que viraram profissionais do ramo esportivo. Mesmo não dando sequência à série, valeu!... Contei a história de Genivaldo Rosa, atleta frequentador de pódio em grandes maratonas dos anos 90. O atual comerciante atrai corredores à Loja dos Tênis Esportivos, no Flamengo, com atendimento diferenciado e orientador... Confira sua história!

8º Lugar: Sonho de Corredor.

Foi pelo Facebook que descobri Elton Wander, um corredor de Ibiporã, interior do Paraná. Ali mesmo acompanhei suas provas e percebi que ele era treinado por Adriana de Souza - duas vezes vice campeã na São Silvestre. Elton me colocou em contato com Adriana, que gentilmente me contou sua história... Sonho de Corredor agregou as histórias de Adriana e Elton, a mestra e o aluno dessa atividade onde todos são alunos e mestres ao mesmo tempo... Confira!

8 Anos, Quem Diria!...

Li na internet que a média de vida útil de um blog é (pasmem!) de 90 dias... E BiraNaNet já está há oito anos por aqui, querendo ficar pelo menos mais oito. O blog não prioriza os vídeos, que são mais populares, mas nem por isso faz feio... Atualmente (2015/16) tem média de 5 mil acessos/mês. Escrever crônicas de corrida, criar imagens e conteúdos inéditos é um desafio. Cada texto que escrevo é uma corrida que completo. Cada elogio, uma medalha!...

Muito obrigado pela visita!

Abraços!
Bira. 


(...) Surpreendeu-se ao deparar, dentro do cemitério, com ruas compridas e desertas, que mais pareciam pistas de corrida margeadas pelos túmulos. Imediatamente lembrou que já não corria, há muito tempo, e decidiu fazê-lo ali mesmo, naquela hora (...) - trecho.

Antonio Carlos passando em frente ao Coliseu - foto de arquivo pessoal.
Amigos!

Segue a bela história de Antônio Carlos de Carvalho - corredor mineiro radicado em Roma, em...

As Aventuras de BiraNaNet - Cap. I - Parte II

a) "POSSO PARTICIPAR DESSA CORRIDA?"
Estamos em maio de 1982, no complexo esportivo do Grupo Santista, na Zona Oeste de São Paulo. É manhã domingo e as provas de atletismo da Fábrica de Tecidos Tatuapé estão para começar. Antonio Carlos de Carvalho, um jovem funcionário da fábrica, ignorava o evento. Ele tinha acabado de chegar ao local apenas para jogar futebol, como fazia todo domingo. Daquela feita, no entanto, percebeu um movimento incomum na pista de atletismo e se aproximou para observar alguns corredores que ali aqueciam. Quando deu conta que iniciaria uma competição, pediu para participar, alegando que também trabalhava na empresa. Resumindo o que veio a seguir: ele, que nunca correra antes, simplesmente ganhou duas competições, de 1.500 e 3.000 metros, e foi convidado a entrar na equipe de corredores do Grupo Santista.

Um ano depois, já totalmente convertido do futebol para a corrida, Antônio Carlos estava obtendo bons resultados em competições. Certo dia foi treinar sozinho no Parque Piqueri, localizado também no Tatuapé, quando avistou corredores do Corinthians se aquecendo. Aproximou e repetiu o pedido feito, há um ano, no campeonato de atletismo:

-- Posso participar?...

Desta feita, no entanto, o treinador do Corinthians - José Roberto - encarou o intruso e disse:

-- Aqui, com nós, você vira atleta ou morre!... - E o riso foi geral.

Para Antônio, a risada coletiva soou como o ranger de uma imensa porta se abrindo. Ele teria a oportunidade de correr com grandes atletas!... Mas, no grupo, foi logo foi apelidado de Cheira-meia, já que era o último da fila, durante os treinos. Antônio não se importou com o apelido e continuou ganhando experiência ao treinar com corredores de elite. Certo dia, o técnico aplicou um treino que envolvia toda a equipe. Ao todo seriam percorridos 18 km numa pista, da seguinte forma: Os primeiros 9 km seriam corridos no ritmo de 4 min por km (4X1) e os 9 km finais, no ritmo de 3 min por km (3X1). A cada 3 km, os atletas teriam um minuto de intervalo para recuperação... Vamos ao treino:

b) A REDENÇÃO DO CHEIRA-MEIA!
Depois da largada, Antônio (Cheira-meia) assumiu o seu lugar no fim da fila, continuando ali por toda primeira etapa. Ele sentia que estava num bom dia, mas não quis se precipitar e acelerar antes da hora. Nos 3.000 metros finais, Cheira-meia resolveu acelerar e ultrapassar cada membro da equipe. Até quem tentou resistir foi batido por ele. Seu técnico sorria ao vê-lo rodando muito abaixo dos 3X1. Naquele momento, o Ex-Cheira-meia ganhou respeito e entrou, de fato, para equipe do Corinthians e participou de todas as provas seguintes!

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Com a equipe ganhou prêmios ao vencer provas no interior de São Paulo e Sul do Brasil. Vieram os patrocínios trazidos pelo programa de incentivo ao esporte do Governo Federal. Com a melhoria de vida casou-se, em 1985. Cinco anos após o casamento, no entanto, mudou o governo e a lei de incentivo foi abolida para ele e outros 200 atletas. Justamente quando já era pai, Antônio viu seus rendimentos reduzidos a dois salários mínimos mensais! Viu que seria impossível sobreviver com a família em São Paulo... Era 1992, o mesmo ano que a Ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, aterrorizou o Brasil com o confisco da caderneta de poupança. Foi quando Antônio abarrotou suas malas e retornou com a família para o interior de Minas Gerais.

Foi morar em João Monlevade, cidade vizinha a São José do Goiabal, onde nasceu. Lá tentou de tudo: vender pastel, sucos de frutas e concursos públicos, mas nada deu certo. Apesar dos problemas, criou um grupo de corredores locais, denominado ACORP - Associação de Corredores de Pista e Rua. Mas isso não lhe dava sustento, apenas alegrias - que não pagam as contas. No início do ano seguinte, 1993, Antônio decidiu vender sua moto e comprar passagens aéreas para Roma, capital da Itália, onde tentaria arrumar trabalho e dinheiro.

c) PERAMBULANDO NAS RUAS DE ROMA...
Antônio foi sozinho para Itália com dinheiro para pagar apenas três meses de aluguel. Seu plano seria conseguir biscates como servente de pedreiro. Por isso ficava em frente às lojas de material de construção, de manhã, onde os empreiteiros costumavam contratar ajudantes temporários, mas nada conseguiu. Economizava fazendo refeições gratuitas na Caritas de Roma. Depois, perambulava pelas ruas para aprender o idioma, pois na casa onde morava só residiam brasileiros. Diferente de Antônio, o tempo não parou de correr e nem o pouco dinheiro que tinha parou de minguar... O ex-corredor não via o dinheiro lhe tocar às mãos, mas via o tempo escorrer entre seus dedos.

Quando o sol de Roma se recolhia, uma lua deprimida surgia diante de seus olhos trazendo o medo, a insônia e a depressão. Alguns dos brasileiros que residiam com ele bebiam, fumavam ou se drogavam à noite. O ambiente não era propício a ninguém, muito menos a um atleta. Então, ele voltava a andar pelas ruas, às altas horas da noite, até que o sono batesse e lhe levasse de volta para casa. Em um desses dias, caminhava rente ao Cemitério de Verano, quando percebeu que uma parte de seu muro estava quebrada. Era mais uma fria madrugada de março de 1993 e a cidade dormia. Seria improvável que alguém quisesse entrar no cemitério naquele momento, mas Antônio parecia atormentado demais para temer assombrações e entrou no cemitério pela falha do muro.

d) CORRENDO NO CEMITÉRIO...
Surpreendeu-se ao deparar, dentro do cemitério, com ruas compridas e desertas, que mais pareciam pistas de corrida margeadas pelos túmulos. Imediatamente lembrou que já não corria, há muito tempo, e decidiu fazê-lo ali mesmo, naquela hora... Pôs-se a correr entre os ciprestes sombrios e as estátuas de anjos que ornamentam as sepulturas... E foi assim: em meio á quietude do cemitério e um turbilhão de incertezas que Antônio estava de volta à corrida!

Retornou ao cemitério para correr, todas as madrugadas. Desesperou-se quando restavam apenas 15 dias de aluguel pago. Foi caminhar pelo centro de Roma e entrou num bar, reduto de brasileiros. Ali conheceu Brandão, mineiro de Governador Valadares, com quem desabafou. O pedreiro Brandão anotou seu telefone e prometeu lhe contratar como ajudante. Antônio encheu-se de esperança e nem precisou correr no cemitério, naquela noite, para resgatar o sono. De manhã, foi caminhar sobre o gramado da Villa Pamphilj. No imenso parque avistou uma concentração de corredores se preparando para competir...

e) "POSSO PARTICIPAR DESSA CORRIDA?... (DE NOVO!) "
Sem que Antônio sequer pensasse, suas pernas lhe conduziram para o local onde os atletas se aqueciam. Sem precisar sequer falar italiano direito, sua boca pronunciou o pedido: "Posso participar?"... Sim, ele pôde e correu muito bem, chegando na terceira colocação, para surpresa geral. A seguir foi convidado a entrar na equipe da Roma Sprint.

Dois dias depois, o pedreiro Brandão lhe ligou oferecendo trabalho prometido e outra casa para morar. No novo lar os demais moradores não se drogavam. Permaneceu trabalhando com Brandão, até que Stephano Amadei, presidente da Roma Sprint e empresário da construção o empregou.

-- Foi aí que juntei o útil ao agradável - relatou Antônio -- Voltei a ser atleta de ponta e transformei todas as premiações que obtinha em material esportivo que enviava para ACORP (aquela equipe que eu havia fundado em João Monlevade, pouco antes de se aventurar na Itália) explicou.

Vannucci Jr. nunca foi a Parnamirim (cidade vizinha a Natal - RN), nem tampouco conhece Sandro Oliveira, um morador do município conhecido por ter o maior cajueiro do mundo. Sendo assim, seria improvável que eu começasse a escrever sobre Vannucci citando Parnamirim e Sandro Oliveira, mas é justamente o que farei e você saberá porque, em...

A alegria de Vannucci ao filmar corredores, foto de arquivo pessoal.

Vannucci, Filma Eu!!!

Amigos!

Aos 47 anos, Sandro Oliveira estava obeso, deprimido e tomava dois remédios para hipertensão...

Talvez fosse o começo de março de 2015, quando a noite caiu, no Rio Grande do Norte, e o vento balançou as cortinas do quarto de Sandro. Escrevo "talvez", porque o vento fazia isso todos os dias de todos os meses. Pobre vento potiguar, que balançava as cortinas quando queria balançar Sandro!... Queria fazê-lo encontrar uma nova perspectiva na vida. Mas, no fim de cada noite, o forte vento já estava exausto e produzia um silvo triste, incapaz de animar qualquer ser humano, antes que o sono chegasse.

Talvez fosse começo de março, quando Sandro ligou o computador e entrou na internet. Digo talvez, porque Sandro fazia isso todos os dias. Daquela feita, no entanto, seria diferente. Ele descobriu o blog Corrida Rústica, e começou a assistir, ali, os vídeos produzidos por Vannucci Jr. que fizeram seus olhos brilharem. Em um desses vídeos, Vannucci saía para correr às cinco da manhã e encontrava amigos pelo trajeto. Sandro imaginou-se dentro do vídeo, correndo com Vannucci e seus amigos nas ruas de Uberaba - MG, e decidiu: é isso que eu quero para mim!

Talvez já fosse final de março, quando inspirado pelo blog de Vannucci, Sandro começou a praticar treinamento funcional, visando iniciar na corrida. Tempos depois já estava correndo. Começou a perceber os bons ventos que sempre entraram pela sua janela. Começou a perder o excesso de peso, subtraindo 12 kg em seis meses. No dia 28 de outubro, Sandro estava feliz e queria falar com Vannucci para agradecê-lo. Entrou no blog de Vannucci e descobriu um número de celular para contato. Mas o número não era de Vannucci, era o meu celular que ali foi divulgado devido a um evento que eu e Vannucci promovíamos.

Talvez não fosse por simples engano que Sandro me ligou e disse:

-- Bom dia, Vannucci!... Eu me chamo Sandro e sou de Natal...

Eu estava no metrô quando recebi a ligação e quase desliguei depois de dizer que era engano. Mas rapidamente intuí que ele quisesse falar com meu amigo de Uberaba:

-- Sandro, você deve ter visto o meu número no blog do Vannucci, mas eu me chamo Bira...

-- Poxa, Bira, eu queria muito falar com ele! Acompanho seus vídeos na internet e comecei a correr por causa dele. Você tem o número dele? - suplicou.

-- Tudo bem... Aguarda um pouco que eu vou te passar por mensagem. - e desliguei.

Ontem foi a minha vez de ligar para o Sandro e lhe perguntar se conseguiu falar com Vannucci e saber, com detalhes, os motivos de seu contato. Expliquei-lhe que eu estava fazendo uma postagem sobre nosso amigo e ele revelou sua história, que descrevi.

Vannucci - AB (Antes da Boina)


(...) "Quando faltavam dois quilômetros (...) eu já estava me arrastando - para dizer a verdade, eu corria cerca de 700 metros e caminhava 100 (...). Toda hora eu resmungava: 'Isso é coisa de louco!... Aqueles caras que fazem Iroman são loucos!...(...)


O Diário de Corrida de Zim

Amigos!

Erivaldo Zim - foto de arquivo pessoal.

Esta semana eu liguei para o amigo e corredor Erivaldo Zim (foto) por três importantes motivos:

Primeiro, quis prestar solidariedade pelos momentos difíceis que ele está passando. Nosso amigo está sendo submetido a tratamento quimioterápico no INCA - Instituto Nacional do Câncer, para se curar daquela doença. Depois perguntei se ele concordava que seus amigos organizassem um treinão pela sua cura e que, na largada, orassem um Pai Nosso em favor da sua recuperação. Finalmente, eu também queria contar a sua história de corredor neste blog.

Zim (54 anos) concordou e começou a me descrever sua história na corrida...

Na foto: Erivaldo Zim correndo nas olimpíadas militares de 1986.

Começou a correr em 1985, quando um coronel do Exército, no quartel que Zim servia, reuniu a tropa planejando uma confraternização. Fariam uma corrida de Deodoro a Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, com percurso de  35 km. O oficial solicitou voluntários e o jovem soldado Zim, então com 23 anos, apresentou-se achando que todos na tropa fariam o mesmo. Para sua surpresa, apenas seis corajosos se ofereceram e só lhe restou, nos próximos dias treinar, treinar e treinar... O dia da prova chegou e, como recompensa, ele cumpriu o trajeto em 2 horas e 17 minutos. Fisgado pela corrida, Zim participou das Olimpíadas do Exército no ano seguinte e deu baixa do serviço militar em 1989.

Erivaldo entrou para a Polícia Militar em 1990, quando participou de diversas provas, incluindo a Corrida da Ponte Rio-Niterói. Em 1992 quis encarar sua primeira maratona, a Sul América Seguros, no Rio. Para isso seguiu uma planilha de treinos da Revista Físico-Forma e escreveu um diário de treinos. O diário de Zim foi impresso e encadernado e com os relatos da sua grande prova.

Ao saber da existência do diário eu abortei da ideia de tentar descrever sua história. Deixarei que os próprios trechos do Diário de Zim revelem o mais importante: As suas emoções de corredor, a seguir:

As Emoções do Diário de Zim


"MINHA 1ª MARATONA" (Trechos do Diário)


A CONCENTRAÇÃO: 

"São sete horas e vinte e cinco minutos, todo mundo alegre, se cumprimentando e desejando aos amigos boa sorte (...)"

A LARGADA: 

"Eu estava tranquilo, mas , como todo mundo, com uma passadinha bem curta: 'só no sapatinho' (...)"

O TRAJETO: 

"Fui ganhando posições, até os 10 km a corrida estava muito boa, fiz com 47 minutos e já havia passado muita gente. Quando cheguei aos 19 km, lembrei da barreira dos 29 e pensei: 'não existe barreira alguma!', apesar de estrar sentindo o joelho."

A BARREIRA: 

"Cheguei aos 25 km com 1:58 h, o mesmo tempo que fiz na Corrida da Ponte'91. No km 28 eu estava ansioso para ver a plaqueta dos 29 km, que não chegava nunca. Minhas passadas começaram a diminuir e o corpo parecia entrar em uma máquina de moer carne."

"Finalmente 29 km! Prossegui com passadas mais curtas e quebrei a barreira (...) Mas o fantasma da barreira estava me esperando nos 34 km. A todo tempo lembrava do que tinha lido sobre maratona, na Revista Físico-Forma, e aquilo ia me dando forças."

A SUPERAÇÃO:

"(...) Isso não é corrida!... Maratona é um desafio. No começo você briga com outros atletas, briga com o tempo... Mas ali, no km 35, eu já estava brigando comigo mesmo. Comecei a resmungar: 'Isso é coisa de maluco!'. A vontade de parar era demais, mas só faltavam sete quilômetros (...) o problema é que depois de ter corrido 35 km, sete quilômetros pareciam outra maratona!"

"Comecei a sentir câimbras, nas batatas das duas pernas, no km 36. Eu não me sentia como um corredor. Eu estava controlando câimbras e dores musculares. Eu já estava me empurrando... nas ruas o público vibrava, dando forças, e a minha única retribuição era um sorriso com cara de choro."

"Cheguei aos 39 km com um cansaço intenso e câimbras cada vez mais fortes. Os aplausos que recebia em nada adiantavam."

A CHEGADA:

"Quando faltavam dois quilômetros (...) eu já estava me arrastando - para dizer a verdade, eu corria cerca de 700 metros e caminhava 100 (...). Toda hora eu resmungava: 'Isso é coisa de louco!... Aqueles caras que fazem Iroman são loucos!...

Nunca mais vou fazer maratona!... Vou ficar um mês sem correr!...' A 500 metros da chegada já dava para ver minha torcida organizada: Tina, Aninha e Cláudio, todos batendo palmas para mim. Eu comecei a me sufocar com alguma coisa que era a vontade de chorar, 'Não!... Eu não vou chorar!'... Queria falar para Tina que minhas pernas estavam doendo, mas minha voz não saía..."

"Quando cruzei a linha e ganhei uma medalha de participação, não aguentei: Corei, chorei de soluçar!... Mas o engraçado é que eu não sabia porque estava chorando. Eu já havia cumprido o que prometi a mim mesmo. Sentei no chão e chorei mais ainda, contando as dificuldades que passei e só parei de chorar quando desabafei os sofrimentos de um corredor na sua primeira maratona... Para vocês veem o quanto forte é essa emoção, agora mesmo estou chorando ao descrever esses momentos... Mas não é um choro triste, nem alegre. É um choro de satisfação!"  # #  #


Chegada de Zim na Maratona Sul América de 1992, no Rio.  
 

O Prazer de Treinar com Amigos


Quem conhece Zim Zim (seu perfil no facebook), sabe de seu enorme prazer em reunir amigos nos memoráveis treinões que realiza. Ano passado ele superou todas expectativas, organizando os dois treinões melhores treinões que eu participei até hoje: O Treinão do Rio da Prata (29-06-14, onde percorremos as trilhas do Vale das Taxas, na Zona Oeste carioca) e o memorável Treinão da Ilha Grande (15-11-14), no litoral de Angra dos Reis. Para se ter uma ideia, além de apoio com hidratação durante o percurso, ele providenciou medalhas, camisa do evento e mesa de frutas. Muitos, como eu, não conheciam a Ilha Grande, para onde fomos de catamarã (que o próprio Zim gratificou) a partir do cais de Conceição do Jacareí. Dificilmente alguém fará um treinão tão grandioso quanto o da Ilha Grande, a não ser o próprio Zim.

Correndo por Zim, no Mendanha!


Os amigos de Erivaldo Zim se reunirão mais uma vez, no Mendanha, em mais um treinão. Será no dia 29 de novembro de 2016, às 7 horas. Antes da largada faremos uma oração de mãos dadas pelo seu restabelecimento. Este evento foi aberto no facebook com o nome Treinão de Confraternização em Solidariedade ao INCA, para ingressar, clique no link a seguir:

https://www.facebook.com/events/560922424059974/

Acreditamos que nosso amigo Zim vai superar mais essa e queremos mostrar que estamos ao seu lado!

Abraço!
Bira.  


Às vésperas de completar 70 anos, a corredora Lindalva Figueiredo me contou sua emocionante história...


Na foto, ela é acarinhada pela filha, Claudinha, em mais um domingo de corrida no Rio - arquivo pessoal
Amigos!

Todas As Idades de Lindalva...

-- Vai fazer seis anos que eu comecei a viver! - enfatizou Lindalva, ao telefone, quando era entrevistada por mim.

Fiquei imaginando sua expressão. A interlocutora tomou fôlego e passou a descrever sua rotina atual:

-- De segunda à sexta eu acordo às cinco da manhã. Depois pego o ônibus e vou para o Leblon ou Copacabana. Treino no Projeto Rio Praia Maravilhosa que tem assessoria esportiva nas areias. Nos finais de semana que não tenho competição, corro da Tijuca até o Horto, o Alto da Boavista ou o Cristo!... Não sinto preguiça - o que tenho que fazer, faço!... Não tenho cansaço!...

Lindalva vai completar 70 anos de vida e eu não poderia deixar de escrever sobre isso. O vigor de sua fala, no entanto, não denuncia os anos passados. Ela fala de sonho e suor como se fossem sinônimos... São os suores de hoje que relata com euforia.

Mas, Os Suores Passados?...

Mas eu também queria saber dos seus suores passados. Daqueles suores gotejados no solo fértil de Timbaúba, município localizado no interior de Pernambuco. Sem dó, fiz Lindalva viajar no tempo. Sair de um paraíso carioca que se descortinou, de fato, aos 64 anos, quando ela começou a correr. Levá-la de volta às durezas de sua terra natal, nas décadas de 50 e 60.

Foi na Zona da Mata pernambucana que Lindalva foi criada, com nada menos que nove irmãos. Logo cedo lhe deram uma enxada - mais precisamente aos cinco anos de idade:

-- Naquele chão dava de tudo!... - relata e complementa: -- Mas em terra de fazendeiro a vida era muito infeliz e sem futuro.

Seu pai não queria que filha mulher estudasse, por outro lado os filhos homens só tinham tempo para trabalhar. Seu pai também não permitia que os rebentos deixassem aquele chão, em busca de algo melhor. Mas um dia aquele chão calou a voz impositora de seu pai... Era início do emblemático 1970 e, antes mesmo que o ano acabasse, Lindalva decidiu deixar a roça.

Cabras, galinhas, rapadura e farofa...

Quando o ônibus da Itapemirim partiu da rodoviária de Timbaúba, rumo ao Rio de Janeiro, eram 11 horas da manhã de sábado, 19 de dezembro de 1970. Dentro dele estava Lindalva, sua mãe, seus irmãos e irmãs casados, juntamente com seus pares. Todos somavam dez. Para que sentassem nas poltronas daquele ônibus venderam cabras, galinhas e juntaram dinheiro. Para trás deixavam uma vida dura e cansativa. Pela frente teriam uma viagem dura e cansativa: a dureza e o cansaço ainda lhes acompanhariam... Vinte e cinco anos de dureza viajavam com Lindalva (e quantos anos duros viajavam com todos os passageiros daquele coletivo?).

As luzes do dia e da noite se revezavam nas janelas da condução. Ali penetrava um vento quente, às vezes fresco, que servia de alento ou respiro. Rapadura e farofa estocada, servia de alimento. Até que todos chegassem no Rio na segunda-feira, 21 de dezembro de 1970.

Pendurado na banca da Rodoviária Novo Rio, o Jornal do Brasil dava destaque ao sequestro de um embaixador suíço, na Glória, com participação do guerrilheiro Carlos Lamarca. Nada daquilo, no entanto, parecia afetar a vida daquele grupo de migrantes. Eles sequer sabiam ler e seu destino final estava bem longe dos bairros da Zona Sul. Rumaram para Inhoaíba, na Zona Oeste - a 60 quilômetros dali. Morariam entulhados numa casa de apenas dois cômodos, onde até então, só morava uma tia de Lindalva. Dormiriam embolados nos lençóis que se espalhariam pelo chão... Até que tudo se ajeitasse.

Logo Lindalva foi trabalhar de doméstica em Campo Grande, mas ficou só três meses no serviço, pois o seu patrão espancava a mulher. Arrumou outro emprego em Madureira, onde permaneceu por cinco anos e conheceu seu marido. Aos 28 anos ficou grávida, mas seu casamento não deu certo. Separou-se e foi trabalhar em uma residência na Praça Mauá - Centro do Rio. Continuou tocando a vida sozinha. Mas quando sua filha completou quatro anos, foi à procura do marido para registrá-la. Voltou a conviver com ele e foram morar em Senador Camará.

Como se Fosse Um carimbo...

Dias, meses e anos viraram décadas... O Jornal do Brasil continuava pendurado na banca da Rodoviária, mas não parava de trocar suas manchetes. A vida de Lindalva, no entanto, possuía sempre o mesmo texto, como se fosse um carimbo:

-- Continuei trabalhando como doméstica ou faxineira... Não saía para lugar nenhum!... Meus dois momentos de felicidade foram a festa de 15 anos e a formatura de minha filha.

Quando, em 2010, o Jornal do Brasil deixou de ser publicado, os tempos já eram outros: Guerrilheiros haviam virado governantes, bancas de jornais viraram bombonières... Logo na época em que Lindalva estava, enfim, se alfabetizando, foi que os jornais resolveram acabar?!... Não, não é bem assim... É que as notícias se libertaram do papel, feito Lindalva que há 45 anos desenraizou-se de uma fazenda longínqua!... É que hoje, Lindalva não fere mais o chão com golpes de enxada, mas beija-o com seus tênis! Cada passo que dá, numa corrida, é um beijo de gratidão! Um acalento na terra que não calou o grito mudo de seus sonhos, como um dia calou seu velho pai.

Lindalva aposentou-se em 2005, aos 60 anos, mas continuou fazendo faxinas. Teve problemas de pressão arterial e procurou um médico, aos 64. O médico recomendou que fizesse caminhadas. E foi aí que a sua vida começou, enfim, a mudar...

Sua filha Claudinha, que já era corredora, começou a levar Lindalva para caminhar no Aterro. Enquanto a mãe caminhava, Claudinha corria. Lindalva adorou, mas queria mesmo é correr. Fazia isso escondido da filha, aproveitando dos momentos que a mesma dobrava uma curva. Para sua alegria, o médico liberou a corrida que sua filha parou de controlar.

Matriculou-se no colégio Santo Inácio, onde foi galgando cada série do ensino fundamental. Deixou de pegar ônibus pela cor e começou a se comunicar melhor com as pessoas e o mundo.

Todas as idades de Lindalva hoje correm com ela. Todos os seus tempos tolhidos vão com ela estudar. Imaginei, comigo mesmo, que no Colégio Santo Inácio ela fosse uma das alunas mais queridas. Quis conferir, conversando com uma professora. Quis perguntar à sua mestra:

-- Você conhece a história de Lindalva, tanto quanto conhece as histórias dos outros heróis dos seus livros?

Quis saber:

-- Qual é a sensação de uma professora ao instruir uma aluna que tem muito mais para lhe ensinar?

Mas eu não consegui falar com a mestra. Consegui apenas uma mensagem no celular, dizendo:

-- Olá! Estou em Sala... Será um grande prazer testemunhar sobre uma pessoa tão iluminada como D. Lindalva... Abraços, Fabiane.

Pensando bem, foi melhor assim... Melhor não ficar esmiuçando mais detalhes ou essa postagem não tem fim!...


Lindalva atrai olhares ao completar a Golden Four Asics 21 km, na Praia de São Conrado, no Rio.

A Represa Lindalva!

Conheci Lindalva Figueiredo em 2014. Foi num treinão muito puxado e concorrido, de subida às Torres da Serra do Mendanha - recanto desconhecido para a maioria dos corredores cariocas. Duvidei, em pensamento, que aquela senhora pudesse vencer o duro percurso inclinado. Eu estava totalmente enganado... Só agora sei que a juventude de Lindalva ficou, durante décadas, represada no corpo e na alma. Agora vislumbro sua emoção quando me disse:

-- Faria por tudo de novo para ter a vida que tenho hoje!

Considero essa frase fantástica, quando vinda de alguém que beira 70 anos de idade. Considero que Lindalva resgata, hoje, todas as suas idades, a tempo de ser feliz. Pelo asfalto, seus sonhos se misturam aos sonhos dos jovens atletas que lhe rodeiam. Pelas trilhas, ela goteja o mesmo suor de companheiros que poderiam ser seus netos. Sua voz se mistura às vozes dos corredores de idade mediana, enquanto seus pés se afundam nas areias que bordam o mar.



Lindalva e seus amigos, pouco depois de completar a Subida do Cristo


Por telefone, pedi que Lindalva encerrasse essa postagem transmitindo a todos uma mensagem, e ela falou:

-- A vida é boa e maravilhosa quando a gente dá valor a ela... Quando a gente faz o que gosta é melhor ainda!


Atualização da postagem  (em 12-02-18):

Depois desta postagem, D. Lindalva foi se tornando cada vez mais conhecida dentro e fora da corrida. Completou a Maratona do Rio, nos anos seguintes, onde tem o privilégio de fazer o aquecimento junto com os atletas de elite. Várias matérias foram publicadas sobre ela, em jornais e TV, nenhuma com tantos detalhes quanto essa.


( Esta postagem foi reproduzida integralmente pelo blog PULSO, do Jornal O Globo, confira clicando no link: http://blogs.oglobo.globo.com/pulso/post/todas-idades-de-lindalva.html?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar )

Abraços!
Bira.

A bela história de Moraes Runners, um dos corredores de rua mais conhecidos do Rio de Janeiro.

Moraes Runners num Mar de Medalhas, montagem Bira - 13/06/15


Amigos;


Moraes Runners Somos Nós!

Depois de cruzar toda costa brasileira, o navio de guerra G 26 aproximou-se do  mar do Caribe, rumo a Porto Rico. Era noite e a tênue linha do horizonte separava o mar rasteiro de águas escuras de um outro mar: o mar das estrelas. No convés do navio, um marinheiro solitário ergueu a cabeça e seus olhos espelharam todos os astros do céu. Foi quando surgiu um terceiro mar intangível de saudade no seu peito, querendo afogar seu coração. Naquele momento, nem todos os sois de todos os céus brilhariam mais que os olhos de uma amada distante...

Em 1975, o jovem marinheiro Moraes cuidava da casa das máquinas do navio G-26, o Duque de Caxias. Essa função o mantinha abaixo do nível do mar na maior parte do dia. Seu dormitório também estava abaixo do nível do mar, onde escutava o bater das ondas. Ao final do expediente, costumava subir ao convés para pescar, respirar e refletir. Às vezes, se dirigia à popa do navio e fixava o olhar no turbilhão das águas, que o mar dissipava. Se no começo de uma missão tudo era festa. Bastariam três meses no isolamento para fazê-lo pensar; "Não vou ficar nisso para sempre!..."

Navio de Desembarque de carros de Combate Duque de Caxias, o G 26 da Marinha de Guerra.



Corrida e Futebol

Carioca de Padre Miguel, Moraes entrou para Escola de Aprendizes da Marinha, em Santa Catarina, aos 18 anos. Ali deu sequência à prática de esporte, iniciado na infância, nas competições de corrida entre colégios da Zona Oeste. Bom de bola, logo entrou para a seleção de futebol do quartel. Manteve-se invicto por um ano e quatro meses - todo período que atuou como cabeça de área da seleção. Já formado marujo, voltou para o Rio, onde foi indicado para servir no navio G 26.

Enquanto marinheiro, aproveitava os intervalos entre as longas viagens para jogar futebol ou dar uma corridinha. Começou a namorar e casou-se em 1980, ano em que deixou a Marinha, e conta:

-- "Bati perna" um pouquinho, até que em 83 entrei para a Secretaria de Segurança Pública...

Em terra, voltou a treinar sozinho e tentar convencer os amigos a correrem também, mas era difícil. Participou de algumas corridas e maratonas dos anos oitenta, mas sua prova marcante foi a Maratona Atlântica Boa Vista de 1990, com largada na Barra da Tijuca e chegada na Quinta da Boa Vista:

-- A família foi assistir minha chegada na Quinta, e na premiação teve a presença do Zico!

Paralelo à corrida, Moraes continuou a jogar bola até 2004. Nesse ano, foi convidado pelo corredor Valdecir a entrar para a Equipe Mula-Manca. Entrou, e no mês seguinte foi para Paraty, correr a "mini-maratona" de 18 km. O ex-corredor solitário retornou à Paraty, por oito anos seguidos, junto à equipe.

A profusão das corridas de rua fez o velho marinheiro ganhar infindáveis amigos e vencer sua timidez. Mais valem, hoje, os seus inúmeros amigos táteis do que todo encanto das constelações distantes, na solidão do mar. Seu armário guarda um mar de medalhas, de tantas corridas, que já perdeu a conta. Conta que já fez uma corrida noturna, voltando para casa de madrugada, para acordar três horas depois e ir a outra corrida. Conta que correu em Niterói de manhã e depois partiu, imediatamente para o Rio, para concluir um revezamento no Aterro, uma hora depois. Conta que já correu em outros estados, até mesmo no exterior, na bela Paris. Conta que nunca se divertiu tanto, como na Corrida de Obstáculo (Rio Cross - em Búzios) feita com amigos do trabalho. Conta que adora os treinões coletivos do Jericinó, da Serra do Mendanha, que nunca esquecerá do histórico treinão organizado por Erivaldo Zim, na Ilha Grande. Contaria tantas histórias que acabariam com a bateria do meu celular. Faço de conta que eu posso vê-lo, enquanto apenas ouço. Faço de conta que posso testemunhar toda emoção que o seu olhar expressa, enquanto conta.

Moraes Runners (foi esse nome que ele escolheu no Facebook) não é um corredor de ponta, nem precisa. É um velho marujo de 60 anos e estatura baixa, que desaparece em meio ao mar de corredores. Acredito que quando Paulo Antonio Moraes escolheu o seu pseudo-sobrenome Runners (Corredores) no plural, ele quisesse dizer que Moraes Runners somos nós, não apenas ele!

É Runners quando se esconde entre os movimentos das cabeças, dos troncos e das pernas, em meio à multidão de uma corrida.

É Moraes quando abre os braços e um amplo sorriso para cruzar a linha de chegada!

Abraço!
Bira.


(...) Eu fazia reparos dos solados com borracha de pneu. Seguia o design original do produto e fiz sucesso entre os corredores. Eu já era do meio e isso também ajudava. Fui chamado de Pitangui do Tênis... (...)

Genivaldo atende e orienta aos atletas com primazia em sua loja no Rio.

Genivaldo do Tênis

Amigos!

Passava das 19 h e 30 min quando cheguei em frente à Loja de Tênis para entrevistar seu dono, Genivaldo Rosa (51). As grades da loja estavam semi-fechadas, mas era possível ver, através do blindex, que ele ainda atendia a uma menina acompanhada de seu suposto pai. Enquanto isso, me distraí na calçada assistindo o Brasileirão na TV do bar ao lado. Depois de fazer a última venda do dia, Genivaldo me convidou para entrar. De cara, pensei na primeira pergunta: "Genivaldo, como você arruma tempo para correr?", mas não era momento de fazê-la, estávamos nos acomodando. Abaixei o olhar para sentar-me num pufe e quando olhei para frente percebi Genivaldo com um álbum de fotos nas mãos, e foi logo mostrando uma delas:

-- Essa aqui foi do meu melhor tempo em maratonas, Belo Horizonte 1992, com 2:25 h.

Chegada de Genivaldo na Maratona de Belo Horizonte'92 - 2:25h - foto de arquivo pessoal.


Genivaldo mostrou outras fotos de pódio e de excelentes chegadas, com naturalidade. Sua fala não possuía exclamações que denotariam um orgulho excessivo. Mas eu fiquei impressionado, não sabia que ele fora tão bom atleta... Quando decidi fazer esta postagem, queria relatar a história de um corredor comum, que uniu o útil ao agradável, aliando corrida e profissão. Genivaldo foi a primeira opção em minha mente - já que eu tinha acabado de comprar um tênis com ele - mas eu não conhecia sua história de corrida. Fui pego de surpresa.

Primeiros Passos no Comércio e na Corrida

As histórias de corrida de Genivaldo levariam toda a noite para serem contadas, mas a noite não era uma criança naquele momento. Então, perguntei por sua origem e como veio para o Rio. Ele respondeu:

-- Nasci em 1963, em Lageado - PE. Com 11 anos de idade fui trabalhar em Arcoverde, cidade vizinha, como ajudante de vendedor de leite. Um ano depois, eu já era vendedor de leite, permanecendo até 15 anos de idade, quando ocorreu uma grande seca e migrei para São Paulo.

Em São Paulo, foi ajudante de bombeiro hidráulico e colocador de forro em residências até os 17 anos, quando veio para a capital fluminense.

-- Fui trabalhar em um haras no Jockey Club, já com 18 anos, quando conheci a corrida graças aos jóqueis. Eles precisavam correr para perder peso e me chamavam para ir junto. Era a época em que Joaquim Cruz se destacou e eu comecei a me interessar pelo esporte. Trabalhei no Jockey de 1981 a 1988.

-- E qual foi sua primeira corrida? - perguntei.

-- Foi a Volta da Lagoa de 84 ou 85... Vi uma faixa promovendo a corrida estendida na rua, fiz a inscrição e fui correr sem nenhuma técnica ou noção. Completei os 8 km em 28:59 min.

-- E o Genivaldo do Tênis ainda lembra do seu primeiro tênis de corrida, na época?

-- Claro que sim... Foi um Nike básico, em 1982... Era um tênis duro e o pior tênis de hoje seria melhor que os tênis daquela época. Daí que comecei a sofrer com as canelites...

O Pitangui do Tênis e O Atleta de Pódio

As canelites que seriam uma maldição para qualquer corredor, foram bênçãos para o futuro Pitangui do Tênis que começou a improvisar.

-- Eu comecei a colar a base de sandália havaiana nas sola do meu tênis duro, para amortecer a pisada. O resultado não era esteticamente bonito, além de ficar pesado, mas curou minha canelite - contou.

Genivaldo não sabia, mas estava dando os primeiros passos como exímio reparador de tênis que se tornaria 10 anos depois.

Mesmo desprovido de orientação técnica, o corredor Genivaldo consegui bons resultados como 2:48 h nos 42 km e 1:12 h na meia-maratona. Chamou atenção de seu patrão, que também era dono do Curso de Inglês CCAA, e começou a patrociná-lo.

-- Parei de cuidar de cavalos e pude treinar. Foi quando ganhei técnica e surgiram meus melhores resultados. Fui 10º colocado no geral das maratonas do Rio'92, BH'92 e Brasília'93. Subi ao pódio em 5º na Maratona do Rio de 1993, com tempo de 2:26 h.

Genivaldo ergue o troféu de 5º colocado na Maratona do Rio'93 - foto de arquivo pessoal.


Em 1993 ele perdeu o patrocínio nas corridas e com o dinheiro da rescisão comprou uma máquina de costurar sapatos, visando o reparo de tênis.

-- Eu fazia reparos dos solados com borracha de pneu. Seguia o design original do produto e fiz sucesso entre os corredores. Eu já era do meio e isso também ajudava. Fui chamado de Pitangui do Tênis...

Naquela época havia oficinas de conserto de tênis. Esse serviço não sobreviveu muito tempo, pois não era possível atender em grande quantidade, a ponto de se poder manter uma loja. Aos poucos, no entanto, Genivaldo foi se tornando um consultor de tênis. Orientava atletas que lhe pediam dicas, e pensou: "Por que eu mesmo não vendo os tênis e ganho com isso, ao invés de apenas indicar?" Sem demora, começou a arrematar lotes promocionais de tênis para vender em grandes eventos, ou na própria casa onde ainda reparava os sapatos de corrida. Genivaldo estava se antecipando às mudanças, logo ninguém mais procuraria os reparadores de tênis.

Em 2002, Genivaldo propôs sociedade a amigos revendedores, como ele, na abertura da Loja de Tênis. Os amigos não toparam, mas ele seguiu em frente e abriu sua própria loja, obtendo sucesso.

*               *               *

O tempo passou e Genivaldo não parou de correr e manter sua forma - foto de arquivo pessoal.


Agora já são nove horas da noite e a Loja de Tênis continua iluminada. O bar ao lado, que espalha mesas na calçada, está lotado de gente assistindo ao Brasileirão. A noite ainda não é uma criança e eu preciso ir embora. Então é hora de fazer aquela pergunta que foi adiada assim que eu entrei na loja: "Genivaldo, como você arruma tempo para correr?", e ele responde:

-- Tive que comprar uma esteira onde treino duas vezes por semana. Complemento com um treino na rua aos domingos e outro durante a semana. Tenho um filho, o Matheus, 11, que tem necessidades especiais e não fica só em casa. Revezo com minha esposa nos cuidados ao menino, que já fez algumas caminhadas de 5 km! - exclama sorrindo, e continua: -- Ainda sinto a mesma paixão pela corrida! Às vésperas de uma prova pego no sono tarde e acordo antes do despertador. #

Já cinquentão, continua colhendo bons resultados - foto de arquivo pessoal.



Abraço!
Bira.





"Além do Blog" é um desafio para descobrir novas maneiras para contar as histórias deste site. Nessa brincadeira eu posso mudar o ângulo ou a interpretação de uma cena. Refaço imagens, recrio, cresço e pavimento o blog... 

A história a seguir, no entanto, eu não ouso mudar sequer uma frase. Ela foi contada na postagem Gilmara Encontra Gilmara  que me emociona sempre que leio e o mesmo se dá com muitas pessoas. Vou repeti-la na íntegra no final deste texto, mas antes quero acrescentar alguns fatos... 


Na montagem, as alegrias de Gilmara corredora e passista.

(...) "Quando entrei na Avenida Paulista, em 2000, com as motos ao meu lado e vi o povo gritando, correndo junto nas calçadas, tudo parecia um sonho! Foi meu momento de maior emoção!" - Adriana de Souza. (...)

DESAFIOS DE SETEMBRO: PARTE II - sonho de corredor

Ufa!... Eis a 2ª parte do meu desafio, trazendo um pouco da história de Elton e sua grande treinadora...
Elton sonha correr sua 1ª São Silvestre este ano. Eu sonhei com ele no pódio e fiz esta montagem...