Onde Estão as Flores?

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(...) Dobrei uma esquina e (Aleluia!) fui surpreendido por  buganvílias coloridas que se atiravam sobre um muro em direção à calçada. Parei para filmar a beleza para depois seguir mais animado (...)

Girassóis, aprisionados no chão de asfalto e concreto, surpreendem quem passa na Rua Licínio Barcelos.

Onde Estão as Flores?


Amigos!

Promessa é dívida e, às vésperas da Primavera, saí para cumprir o Desafio de encontrar flores no meu bairro...

Desafios de Setembro: Parte I - Onde Estão As Flores?

"Se o sol estava forte, fazendo as cores saltarem como peixe em corredeira, deveria haver flores nos canteiros e jardins de Irajá." - era esse o pensamento que me movia:

-- Pois então, que surjam flores inusitadas! Vítimas de mim - um caçador que dispara clicks pelo Smartphone, que tem como zoom apenas a extensão de seu braço!

Eu era um pretensioso caçador de matizes a dobrar esquinas com olhar apurado, mas vi, de cara, que a tarefa não seria fácil - as flores não costumam brotar em chão de concreto:

Às margens do Metrô há terreno de sobra para cultivo de flores, 
Mas o que se vê é lixo descartado pelos próprios moradores... 

...Volta e meia alguém despeja pneus e outro alguém ateia fogo. É quando a fumaça preta se espalha, penetrando nas casas e nos pulmões, impregnando as roupas estendidas no varal.


Flores tímidas de um espinheiro ou da planta resistente à fuligem da beira da estrada - Bira, 2013.

É preciso ter olhos de lince para encontrar flores nas vias principais de Irajá. Percebê-las na singeleza de um canteiro carente, feito apenas para impedir o estacionamento de carros na calçada. Canteiros para onde os automóveis atiram garrafas pet e lama, e o vento, sacos plásticos e jornais amarelados:

Como sofrem as florzinhas empoeiradas,
De vida breve e existência ignorada!

Desisti das ruas principais e me enfurnei onde os ônibus não passam. Penetrei com olhares indecorosos nas entranhas das casas do subúrbio. Fertilizei a minha memória e retornei ao tempo do chão de terra, do quintal de mangueiras, cajazeiros, jaqueiras, goiabeiras e bananeiras. Espaço fértil onde bailavam peões e bolas-de-gudes, zunindo e triscando, para o espanto da galinha que fugiu do cercado. Mas muito tempo passou e as famílias cresceram. As casas expandiram tomando todos os terrenos. O espaço acabou:

Hoje as crianças só dispõem de 17 polegadas para brincar, na tela dos computadores...
O que dizer então de quanto dispõem as flores?...


Buganvílias atiram suas flores nas calçadas de uma casa na Rua Coronel Leitão - Bira, 2013.

Dobrei uma esquina e (Aleluia!) fui surpreendido por  buganvílias coloridas que se atiravam sobre um muro em direção à calçada. Parei para filmar a beleza para depois seguir mais animado. Na Rua Licínio Barcelos havia dois girassóis sorrindo para quem passasse. Captei suas imagens e continuei cruzando grande parte do bairro sem maiores surpresas. Tive a ideia de tirar fotos da Igreja de Irajá ornamentada para um casamento, mas sua porta secular insiste em permanecer fechada: Desisti:

Se não vou na igreja não irei, ao lado, no cemitério,
Os dois locais de ofertórios das flores por casamento, morte ou batistério...

Continuei pelas ruas onde é parca a cultura de flores. Cruzei com pessoas que têm parca cultura de flores ou sequer tiveram escolha entre ornar suas casas ou seus estômagos. Atravessei a Avenida Brasil e perambulei em vão pelo antigo conjunto de casas, que finda em um matagal com acesso à Rodovia Presidente Dutra. Ali, flores azuis tentavam emprestar beleza e cheiro ao local, mas a visão e os olfatos humanos só percebiam o negrume e mau-cheiro de um rio poluído:

...Aprisionaram ou protegeram as flores atrás da cerca na estrada?
Do outro lado os porcalhões expelem mijo e palavras escarradas...


A estátua de São Cristóvão próxima ao Trevo das Margaridas, Avenida Pres. Dutra, ornamentada por flores - Bira, 2013.

São Cristóvão está em Irajá, sustentando o menino Jesus em seus ombros de bronze. Ornado por palmas coloridas no início da Dutra, limite atual do bairro que já foi a Sesmaria Ira-ia-já (o mel que brota) nome dado pelos índios. Há 400 anos, as terras de Ira-ia-já se estendiam de Benfica a Campo Grande. Foi daí que o subúrbio carioca floresceu. Agora o bairro tem 100 mil habitantes e segue ilhado entre seus próprios fragmentos: Vista Alegre, Coelho Neto, Vaz Lobo e outros mais:

...Deparei, há quatro séculos, com mel e flor que brota em Irajá,
Mas foi Gilberto Gil que propôs na sedução de um Reggae:
"Vamos Fugir" pra lá? 




Mesmo que você não as veja, as flores estão sempre ali. Na sua lapela ou nos seus cabelos; em sua casa ou no seu bairro elas têm lugar. Essas flores invisíveis aguardam pacientes, um desabrochar que ocorrerá primeiro em sua mente, depois em seu entorno. Pois um coração florescido se espalha feito Ira-ia-já, que deu à luz tantos bairros cariocas:

... Aproveita que é Primavera e desvenda a flor que te espera!

Abraços!
Bira.



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4 comentários:

Grande poeta mais um belo relato, showww a primavera não é mesmo.
Um abraço,

Jorge Ultramaratonista
www.jmaratona.com

OZEIAS CARLOS disse...

Poxa Bira vc é um cara fantástico parabéns meu amigo por mais post muito maneiro de ler!!!!

Nilo Resende disse...

Olá Bira!
Excelente input a matéria das flores. Faltam flores na vida do ser humano e, consequentemente em nossa vida!!!!!
Infelizmente, hoje as coisas estão como o Luiz disse no vídeo: o ser humano não da valor nem para si mesmo, quanto mais para as flores! Podemos fazer a nossa parte e mudar isso!
Um grande abraço e, que as flores surjam em nossos caminhos!
Nilo

Obrigado Jorge, Ozeias e Nilo pela participação... fazer esta postagem foi uma experiência surpreendente. Eu saí de casa portando o iPhone e tentando achar flores ou situações que envolvessem flores... Dado momento, parecia que não iria dar certo e só não desisti porque já tinha firmado um desafio de fazer a postagem publicamente. Enquanto eu percorria o bairro, lembrei de sua história e fui encontrando flores... Por fim, deu certo!