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(...) Todas as mães de Irajá, que hoje seriam bisavós ou tataravós se foram. Ficou Dona Alzira, na velha casa número 1 (...) 

Trinco caiado da caixa de luz na varanda da casa de minha mãe - um design perdido no tempo.

Muito Além do Gosto e da Forma

Amigos!

Eu não tinha previsto fazer esta postagem que está saindo por impulso. Faltam dez minutinhos para meia noite, de domingo, e eu acabei publicar algumas fotos do aniversário de minha mãe no Facebook. Ela fez 86 anos e reside na mesma casa há aproximadamente 60. Fica em Irajá, onde ela fez sua pequena festa. Sim... É aquele mesmo bairro, que possui um cemitério e uma Academia Irajaense de Letras e ainda é satirizado pelo seriado Pé Na Cova, da TV Globo. Mas eu já falei de ambos aqui: do bairro e da minha mãe. Na postagem Onde Estão as Flores eu mostrei em verso e prosa um pouquinho da história esquecida de meu bairro natal - ex-sesmaria do Rio de Janeiro. Na postagem Amor de Mãe eu falei de Dona Alzira...

Voltando ao aniversário, não havia nenhuma das antigas amigas de minha mãe ali. Dona Didi, Déa, Ondina, Helena, Isaura, Otuma, Nilva... Dentre as que eu me lembro neste momento - todas já se foram. Todas as mães de Irajá, que hoje seriam bisavós ou tataravós se foram. Ficou Dona Alzira, na velha casa número 1. Outro dia mesmo eu estava pensando nos meus planos de não morrer tão cedo e lembrei que minha longeva mãe convive com o lado ruim desta conquista: não ter amigas de mesma geração, ao lado, para estender a mão trêmula e ganhar uma fatia de bolo. Muitas já repousam no céu ou jazem a setecentos metros dali, no cemitério de Irajá. Dona Alzira, no entanto, continua firme - a ponto de eu poder ousar e soltar uma piadinha (que ela nem ouviu) logo depois dos "Parabéns pra você":

- Pronto mãe... Já cantou parabéns e agora a senhora pode partir... o bolo!

Objetos da casa de minha mãe - Bira, 13-05-2014.


Ocupei-me em tirar fotos dos presentes, mas de repente comecei a notar melhor os objetos da casa humilde da minha mãe. Porta-retratos, flores de plástico e relógio de parede... Achei que tudo merecia um registro de imagem. Quem me percebeu não entendeu minha atitude - mas aqueles objetos são como os idosos desprovidos do encanto de outrora, muitas vezes invisíveis num canto.

Passei as fotos do celular para um álbum que fiz no Facebook com a seguinte descrição:

Ninguém continua fisicamente belo aos 86 anos... A essa altura, o conceito DECORAÇÃO pode também se transformar na simples expressão: "de coração", além do gosto e da forma!... Objetos da casa de Alzira... do álbum:

https://www.facebook.com/ubiracy.rezende/media_set?set=a.10202450402244851.1073741870.1338007251&type=3&uploaded=16 

Eu não tinha previsto fazer esta postagem, ela saiu por impulso... Agora já são meia-noite e quarenta e cinco.

Abraços!
Bira.


"Além do Blog" é um desafio para descobrir novas maneiras para contar as histórias deste site. Nessa brincadeira eu posso mudar o ângulo ou a interpretação de uma cena. Refaço imagens, recrio, cresço e pavimento o blog... 

A história a seguir, no entanto, eu não ouso mudar sequer uma frase. Ela foi contada na postagem Gilmara Encontra Gilmara  que me emociona sempre que leio e o mesmo se dá com muitas pessoas. Vou repeti-la na íntegra no final deste texto, mas antes quero acrescentar alguns fatos... 


Na montagem, as alegrias de Gilmara corredora e passista.

(...) Certo dia ele se encontrou com a veloz Corrida. Lançou-lhe o mesmo olhar tímido, que não conseguia seduzir ninguém, e ficou surpreso com a acolhida (...)

Imagem simuladora da conversa ocorrida no chat do Facebook, em 06/05/2014.

A Corrida Gosta de Você!


Amigos!

Ontem eu estava no Facebook, fazendo malabarismos para divulgar minha última postagem, quando o meu amigo Paulo dos Santos abriu um chat no rodapé e me perguntou assim:


-- Bira, o que se faz para manter esse físico tão legal de atleta?

-- Atualmente to meio devagar, mas vai ficar legal de novo... -- respondi sabendo que ele se baseava em fotos do meu perfil, tiradas há pelo menos uns 15 meses. Depois disso eu me lesionei, fiquei meio parado na corrida e por isso também parei de malhar. Fiquei menos feliz e mais gordinho... Mas voltemos às perguntas do Paulo:

-- O que você faz?... Corre muito?... Faz dieta?

-- Correndo não precisa de dieta. -- teclei.

-- Tem algum problema tomar cerveja e beber refrigerante?

-- Até hoje continuo tomando refrigerante. Cerveja só de vez em quando.

-- É bom saber... Estou falando isso porque você é veterano no assunto... Estou com 4.1 de idade. -- justificou meu amigo.

-- Começa caminhando e depois passa a correr aos poucos. -- aconselhei.

-- Preciso muito disso... Me educar nesse sentido. -- confessou o Paulo.

-- Corrida só é ruim nos primeiros três meses. -- incentivei sem mentir.

-- Ah... sim!... Certo... Você quer dizer: tem que se acostumar.

-- Não é você que tem de se acostumar com a Corrida, é a Corrida que tem de se acostumar com você. -- finalizei com chave de ouro, mas fiquei, eu mesmo, tentando entender direito o que acabara de escrever.

Depois saí para trabalhar com esta frase na cabeça, feito aquelas músicas que grudam na ideia. Então comecei a escrever para tentar desvendar meu próprio mistério:

A Corrida precisa se acostumar comigo?... Parecia besteira, mas ao mesmo tempo parecia ter fundamento...

Para não me atrasar no trabalho e nem perder o insight, peguei caneta e caderno e saí, rumo ao metrô. Fui caminhando e escrevendo, tomando cuidado de não tropeçar nas saliências da calçada. Atravessei a rua com um olho nos carros e o outro no caderno. Achei que seria melhor começar o texto modificando o verbo da enigmática frase, e ficou assim:

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"Não é você que aprende a gostar da Corrida, é a Corrida que aprende a gostar de você."

A Corrida não quer saber se você tem dinheiro, beleza ou prestígio, mas fica caidinha diante de alguém persistente.
Conheço um cara que "não tinha um puto no bolso", era feio e ficava abandonado num canto. Ele portava apenas persistência e vontade...

Certo dia ele se encontrou com a veloz Corrida. Lançou-lhe o mesmo olhar tímido, que não conseguia seduzir ninguém, e ficou surpreso com a acolhida.
Encantou-se imediatamente com a Corrida e tentou seguir ao seu lado - como quem sobe num cavalo que passa selado...

Primeiramente correu leve, num trote, mas depois teve que acelerar para não ficar para trás. 
Despreparado, sentiu que seu coração quis sair pela boca, mas nem isso tinha condição: Sua boca era um túnel de vento sugando e expulsando o ar, cada vez mais rápido...

Seus poros eram fontes que jorravam suor. 
Ele até quis dizer algo para a Corrida, que se deslocava veloz, sorridente e tranquila ao seu lado, mas isso não foi possível...

Ela, no entanto, parecia ler seus pensamentos e percebeu nos seus olhos ardidos de sal, um encanto. Seu encanto era maior que o desespero de quem se esforça para não ficar para trás...

A Corrida notou que ele fazia um esforço supremo. Que mesmo sem preparo, ele não queria desistir: 
O moço tinha Persistência e Vontade!...

Diante disso a Corrida também se encantou por ele. 
Cuidou dele e mudou sua vida...

Deu-lhe tudo aquilo que faltava: Dinheiro, Beleza e Prestígio.
Mostrou-lhe que esses créditos eram apenas consequências do Encanto e do Amor...

O encanto e o amor pela Corrida tirou o homem do canto - colocou-o no centro da vida!
Mas antes,  foi preciso que a Corrida se encantasse pela persistência do moço, também...

É que a Corrida sabe que Persistência é uma caixa fechada, repleta de surpresas e qualidades.
É que a Corrida gosta de abri-la...

É que a Corrida gosta de você!... Persista!
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Agora sim, eu posso responder direito às perguntas do amigo Paulo dos Santos. Vou mandar essa postagem para ele.

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Abraços!
Bira.




Moraes posava com outros corredores imitando Usain Bolt, até que um deles percebeu: "Pô, estamos fazendo gesto a toa, não tem ninguém tirando foto agora!": A gargalhada foi geral"

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Amigos!

Pudera as torres repetidoras da Serra do Mendanha captar e transmitir os bons fluídos dos 120 corredores que ali chegaram! 
Quem dera, toda aquela alegria se espalhar sobre a cidade e recuperar o Espírito Carioca! 
Espírito que não morreu, mas que nesses tempos de vandalismo, hiberna feito corredor lesionado... 
Éramos todos cariocas no sorriso e no olhar. 
Nosso olhar atravessava as brechas da mata, captando do alto uma beleza alternativa e distante do mar... 

Sim... Éramos tão cariocas quanto a louríssima Fabiani Dutra, a gaúcha que reside em São Paulo, mas que não perde uma oportunidade de viajar 400 km para rever e correr com seus irmãos de espírito. A auto-denominada "Gaúcha-Carioca" era apenas uma das incontáveis mulheres que não paravam de sorrir e tirar fotos para o Facebook.


 Parte dos corredores na tradicional pose em frente às antenas... Foto de Sérgio Pessoa.
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Quem visse apenas a foto daquela gente, de vestimenta e alma colorida no alto da serra, poderia se enganar e achar que foi fácil chegar ali. Nada disso, partindo do Largo do Mendanha, às sete e trinta da manhã, os corredores enfrentaram os inicias dois quilômetros de asfalto, somados a outros sete de uma subida muito rigorosa e cada vez mais íngreme. Não bastasse isso, eles encararam um piso de falsa-terra-batida, onde o barro se mistura com pedras no chão acidentado. Foi quase impossível não interromper a corrida nos  trechos mais duros - hora recuperar o fôlego caminhando um pouquinho. Impossível também foi ignorar o ponto de hidratação natural, a 1.500 metros da chegada. Mendanha é exigente, tanto para os mais preparados quanto àqueles que apenas caminham. Mendanha, no entanto, é compensador: transforma seus esforços na alegria que devolve com a mesma medida...




Lindalva e Claudia Figueiredo, mãe e filha encaram juntas o duro trajeto nas vérperas do Dia das Mães... Foto de Sergio Pessoa.
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O vento da serra seca as camisas encharcadas e as faz tremular. 
Quando frescor acaricia o corpo e a alma, o ambiente é propício aos sentimentos mais puros e belos,
Expressos em sorrisos, abraços e confraternizações... 
As lembranças de um amigo corredor, que se foi, se transformam em oração coletiva.
Alianças de noivado são trocadas entre aplausos e sorrisos... São sorrisos e mais sorrisos!...
As antenas do pico isolado nunca viram, de tão perto, tanta gente!
Gente 'antenando' os bons fluídos que as próprias antenas adorariam captar e retransmitir!...

Depois que eles tiraram todas as fotos e bateram todos os papos, começaram a voltar. Parece até que todos os santos empurravam, cada um, serra abaixo. Particularmente, pensei o seguinte enquanto descia: "Sem essa de que pra-descer-todo-santo-ajuda.. Santo que ajuda a descer não é santo!...". Então foi preciso ter cuidado com os joelhos ou com um suposto tombo... Mas graças aos verdadeiros santos, todos chegaram ilesos!

Na chegada, a praça do Largo do Mendanha se fez generosa aos corredores. Ela ofereceu seus bancos, suas sombras e uma bica de água fresca. Um outro ser generoso foi ao sacolão e trouxe frutas, guaravita, bolo e pão doce... O cuidado, então, passou a ser não falar de boca cheia...

Um carro buzinou, e dentro dele três corredores acenaram se despedindo. As mulheres trocaram os últimos beijinhos e abraços do dia. Outros se despediram e o Largo do Mendanha foi ficando cada vez mais quente e menos colorido... Foi o fim de mais um treinão inesquecível!



Vídeo I - Entrevista e Concentração de Largada.



Vídeo II - Da largada à chegada nas Torres.


 Link para conferir as fotos do evento no Facebook:

https://www.facebook.com/events/606363919455744/

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Abraços!
Bira.




Amigos!

"Foi o maior treinão de minha vida!..."

Esta frase, escrita por Sérgio Pessoa no Facebook, dispensaria qualquer outro relato do II Treinão Tores do Mendanha 2013. Repetida aqui, no entanto, ela nos conduz para a uma viagem no tempo, até aquela manhã ensolarada de domingo, dia 06 de janeiro de 2013:

Parte dos corredores posam pouco antes da largada... (foto de Erivaldo Zim, no Facebook).

Nem o Sérgio - o organizador do evento - nem ninguém podia imaginar o que estava acontecendo de fato naquele dia. Clareou e Largo do Mendanha ainda estava deserto. O ponto de ônibus estava vazio e o comércio fechado. Pouco barulho na praça além dos piados de pássaros. Campo Grande ainda dormia, ou não tinha coragem de levantar da cama numa manhã preguiçosa de domingo. O sol se erguia, infiltrando-se entre as árvores que ainda predominam na Zona Oeste, atirando uma luz amarela e morna na parede mal pintada da birosca. A medida que o relógio se aproxima das sete horas, tudo muda. Gente falante e colorida começa a chegar na praça. Eles se cumprimentam e são uns 20, 30, 40... Até que ultrapassam 50!

- Eles são mais de 50 e são corredores - pensou o homem ao abrir a padaria.

- Caramba!... Tem mais de 50 pessoas aqui! - pensei eu observando o movimento.

Até então, é provável que nenhum dos presentes tivesse participado de um treinão com tantas pessoas. Começava ali, na manhã de 06 de janeiro de 2013, o que eu chamo de A Explosão dos Treinões Cariocas.


Vídeo do Treinão Mendanha 2013

Da Despedida de Adriano aos Megas-Treinões

O histórico Treinão do Mendanha 2013 mostrou que já era possível juntar muitos corredores num evento feito por eles próprios. Sérgio Pessoa utilizou muito bem o Facebook e abriu caminho para outros grandes treinos que seguiram. Paradoxalmente, um fato triste acabou contribuindo para agregar pessoas e fazer crescer os treinões: O corredor Adriano Molinaro faleceu na semana seguinte, deixando todos consternados. Ainda no enterro, o corredor Flavio Loureiro reuniu os amigos de Adriano e marcou um treino em sua homenagem. O evento foi realizado na Avenida Atlântica, com mais de 100 corredores uniformizados. Depois disso, Flavio tomou gosto por realizar treinões, conseguiu patrocínios e fez sorteios. Fundou o grupo Viciados em Corrida de Rua e chegou a colocar mais 220 pessoas para correrem na Quinta da Boa Vista. Realizou vários eventos para 100, 150, 180 corredores, como descrito na postagem: O Rei dos Treinões Cariocas. E por último, surgiu uma rainha - a corredora Claudia Gama Strogoff promovendo outros megas-treinões.

Pode-se dizer hoje que o cenário da Corrida de Rua mudou graças aos treinões, a começar pelo histórico Mendanha 2013.

Corredoras se hidratam em fonte natural... (foto de Moraes Runners, no Facebook)

É Nesse Domingo!

Neste domingo, 04 de maio de 2014, é bem provável que o Largo do Mendanha esteja de novo preguiçoso e vazio até a chegada daquela gente disposta e colorida, denominada Corredores de Rua e eu quero estar ali no meio da massa - até o momento desta postagem eram 175 corredores confirmados no Facebook...

Que a frase do Sérgio Pessoa se repita em nossas bocas e Torres do Mendanha 2014 seja "O maior treinão de nossas vidas!"

Links relacionados a esta postagem:
"Primeiro do Ano" - Postagem sobre o Treinão Histórico do Mendanha de 2013;
"O Último Treino de Adriano" - Postagem abordando ter sido, esse treinão, a despedida do amigo;
"A Explosão dos Treinões" - Postagem sobre o crescimento dos treinões a partir do Mendanha;
"O Rei dos Treinões Cariocas" - Postagem sobre o crescimento dos treinões e Flavio Loureiro;
"Treinão Torres do Mendanha 2014" - Link para o evento no facebook.

(Siga o blog aee!)

Abraços!
Bira.
Amigos!
Nesta série "Além do Blog" eu dou novas versões às postagens já feitas. Hoje reapresento uma poesia diferente, com interatividade e movimento. Uma reflexão sobre tudo aquilo que você vê, interpreta e escolhe... Confira!

A gente não escolhe o que vê, e sim: vê o que escolhe.

Na década de 80 eu gostava de política e de jogar baralho na praça. Às vezes escrevia algo que por falta de blog guardava na gaveta. Eu era Brizolista como o Zeca, que estacionava o seu carro na calçada da praça ao lado das mesas de jogatina - era como se seu velho fusca fosse um cachorro de estimação - um vira-latas de aço bege e suspensão rebaixada, repleto de adesivos do PDT, que não enguiçava nunca. Zeca tinha quarenta e poucos anos, mas parecia ter mais. Seus cabelos e barbas mal aparados emolduravam o sorriso que seu bigode escondia. Possuía uma perna mais curta que a outra, mas só fumava Hollywood ou Minister. Era o melhor jogador de tranca da praça, segundo suas próprias palavras. Era o maior falador da praça, segundo as palavras alheias.

Eram anos 80 quando soubemos que:

- O Zeca morreu!

- Como Pode?

- Foi tiro!

- E os detalhes?

- Ninguém sabe, foi na semana passada...

Comovido, sem sequer ir ao enterro, eu escrevi "Adeus Zeca" e depois sepultei o poema na gaveta do armário. Somente há dois anos eu exumei o poema. Aqui no blog, ele ganhou interatividade e roupagem cinética. O texto simples se valoriza quando permite a manipulação e auto-transformação perante o observador.

Quase trinta anos depois, "Adeus Zeca" me apresenta novas possibilidades e me faz pensar sobre as possibilidades de tudo aquilo que se vê...

Veja as três versões:

1- Adeus Zeca (1985)

ADEUS ZECA

Na tarde molhada.
A cova engole fria um corpo -
Apaga do cotidiano um homem.

Na face molhada,
Os olhos fitam rubros a cena -
Apagam da mente a esperança.

Se a cova apaga um frio cotidiano,
a esperança mente.

Se a tarde engole os olhos rubros,
um homem acena:
-Adeus!


2- Adeus Zeca (Versão Interativa 2012)
Clique na caixinha e escolha a palavra, sem repeti-la na mesma estrofe... Você pode criar várias versões para a poesia...


Na  molhada

  um    .

que  do  um   .


Na  molhada

a     a pálida .

que   da   a esperança.


Se a     um frio cotidiano

a    .


Se a     a   .
um homem acena:
Adeus!


3- Adeus Zeca (Versão Cinética 2012)
Agora são as palavras que mudam por conta própria, a cada estrofe mais rápido, até quase se fundirem, ou seja, as múltiplas versões se apresentam concomitantemente. Como em tudo na vida, você escolhe o que vê, fotografando o instante que lhe agrada.
___________ 
Um teste interessante seria colocar na tela as imagens da última estrofe (muito rápidas) e tocar na tecla "PrtScn/SysRq" que fotografa a tela, depois colar (ctrl + V) a imagem no Paint, para conferir a versão fotografada naquele momento.










Abraços!
Bira.
(...) O cachorro, mediador do debate, sumiu, mas logo foi encontrado dormindo debaixo da mesa... Corta!... O programa foi interrompido pelos comerciais (...)

Cachorro falante: Colagem de recorte de imagem da internet com paint e gimp.

Surreal

Amigos!

"Se você pudesse voltar no tempo faria tudo igual?"

Quando o dia amanheceu, essa pergunta pairou no ar e na cabeça das pessoas pelos quatro cantos do mundo. Propalada em ecos ela deu voltas na Terra feito satélite. Passou perante meus olhos e invadiu meus ouvidos, e me deixou pensativo. Agora mesmo, a pergunta passou pela China onde ousou afrontar o Rebelde Desconhecido - aquele estudante que enfrentou tanques de guerra na Praça Celestial, em 1989. E o herói anônimo, que hoje cursa a meia idade, tremeu diante da pergunta como não havia tremido diante dos carros de combate:

"Se você pudesse voltar no tempo faria tudo igual?"

-- SIM!... Eu faria tudo igual, sem titubear!...

Responderia o chinês impetuoso e orgulhoso, mas desistiu a tempo, já que a ação do tempo hoje faz tudo ficar diferente, então ele disse simplesmente:

-- Sim... Eu faria tudo igual...

Foi uma resposta opaca, despida de força e verdade. Uma resposta que seria facilmente esmagada pelas esteiras de ferro de um tanque de guerra.


Reportagem da TV Globo relembra o fato histórico... Onde estaria este homem, hoje?


Em São Paulo, essa pergunta foi tema de um debate na televisão. Na mesa, os debatedores convidados eram um empresário e um mendigo, mediados por um cachorro - é isso mesmo que você está lendo: O apresentador do programa era um cachorro, e daqueles vira-latas!... Então os convidados começam a responder a pergunta:

"Se você pudesse voltar no tempo faria tudo igual?"

- E daí, o que importa?... Fatos consumados não mudam! - Disse o mendigo impaciente e raivoso, embora quisesse exibir um sorriso.

- Mas se não mudam os fatos, muda-se a interpretação - rebateu o empresário no melhor estilo auto-ajuda-financeira - Fatos ruins, na verdade, são o-por-tu-ni-da-des para quem faz sucesso!...

A reação do mendigo foi despejar na garganta, em apenas um gole, todo o conteúdo do copo d'água à sua frente. A careta que fez deixou claro que o líquido não era água e sim cachaça. O cachorro, mediador do debate, sumiu, mas logo foi encontrado dormindo debaixo da mesa... Corta!... O programa foi interrompido pelos comerciais...

...

E a insaciável pergunta seguiu seu trajeto pelo mundo:

"Se você pudesse voltar no tempo faria tudo igual?"

Al Gore
- SIM!... Eu faria! - respondeu Al Gore, em Nova Iorque, exibindo seu livro "Uma Verdade Inconveniente" - em uma das mãos. O best-seller, sobre o aquecimento global, foi sua volta por cima após a derrota para Bush, na eleição presidencial de 2000.

Julian Assenge
- NÃO!... Muitas coisas eu faria diferente! - respondeu Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, perseguido por divulgar informações confidenciais do governo americano, a começar pelo bombástico vídeo Assassinato Colateral, onde um helicóptero americano dispara brutalmente sobre 12 civis desarmados na guerra do Iraque. De seu refúgio na embaixada do Equador, em Lodres, Assange completa o raciocínio: "Não suporto pessoas que dizem que nunca fariam nada diferente. Isso significa simplesmente que não aprenderam nada com suas experiências".*

Mas a pergunta ecoou muito além de São Paulo, Pequim, Nova Iorque ou Londres. Muito além das celebridades, ela afetou pessoas comuns de línguas estranhas e diferentes culturas.

"Se você pudesse voltar no tempo faria tudo igual?"

É uma pergunta recorrente ao longo dos séculos, ou seja: Se você realmente voltasse no tempo, a encontraria no passado, como tal. E mesmo que você mudasse os fatos, não mudaria a pergunta. Sua ânsia pelo controle lhe conduziria ainda mais para trás, em busca de reverter outros fatos. E assim, sucessivamente, até o limite dessa vida - na sua concepção - ou até mesmo em vidas passadas que existam por conta da fé. Mudar fatos passados seria um mergulho sem fim!

Muito melhor é seguir o exemplo do vira-lata, apresentador do debate, que ignorou a pergunta e as moscas ao redor de sua cabeça e foi cochilar debaixo da mesa.

Abraços!
Bira.

* A resposta de Julian Assange é real e faz parte da sua entrevista  à Revista Rolling Stones, fev/12. A "resposta de Al Gore", no entanto, é fictícia. 





(...) Reúno todas as forças que me restam. Amplio o quanto posso as passadas. Acelero os movimentos aspergindo gotas de suor pra todo lado (...)

Continua a série "Além do Blog" , trazendo novas maneiras de contar as histórias daqui. Em "Dois Minutos", os momentos empolgantes da chegada na Meia Maratona Asics, na Praia de São Conrado...

Além do Blog III - Dois Minutos

Amigos!

Pronto!... A última curva foi feita e faltam apenas 600 metros para a linha de chegada! 600 metros traduzidos em intermináveis dois minutos! Reúno todas as forças que me restam. Amplio o quanto posso as passadas. Acelero os movimentos aspergindo gotas de suor pra todo lado. Sugo para dentro de mim todo o ar que o mar soprou sobre a Praia de São Conrado.  Aproximo-me das margens, ao entrar no corredor de chegada, e tenho a sensação de que a minha velocidade aumenta ainda mais. Alguém me aplaude, mas não dá para reconhecer. Por instantes as pessoas se transformam em manchas - rastros coloridos que se misturam como toda a visão periférica. Todos os sons também se fundem nas proximidades do pórtico de chegada, formando um burburinho que é quase silêncio. Sem enxergar ou ouvir direito, sigo desabalado querendo engolir cada segundo. Minha visão se faz em cone - mergulho num túnel de cores difusas e vibrantes de emoção... Queimo a emoção para produzir energia e esqueço que estou exausto. Passo voando sobre o tapete que encerra o percurso!...

Interrompo o cronometro de pulso e confiro o meu tempo de prova. Cambaleio, resisto à vertigem e abraço o meu amigo Hélio que também chega vindo detrás. Ele foi o grande responsável pelo meu bom rendimento nos dois quilômetros finais dessa meia maratona, sobretudo pelo meu sprint final. Surgiu ao meu lado no momento mais difícil, quando eu já estava desistindo de tentar manter um ritmo forte na prova. Equiparou-se comigo no km 19, disse alguma coisa para me animar e começou a abrir. Eu tentei acompanhá-lo e tive sucesso. Ajudado pela descida, eu realinhei de novo, mas ele reagiu retomando a frente. O passa-passa  reacendeu minha força-mental e eu esqueci do trauma de ter sentido cólicas no km 18, onde quase quebrei. Quando vislumbrei ao longe a linha de chegada, ultrapassei meu amigo pela última vez. Mergulhei nos dois minutos finas da corrida e fiquei possesso, sem olhar para trás.

Meu tempo final não foi lá grande coisa: 1:38:45h... Afinal de contas eu estive praticamente quebrado na prova... Mas aqueles dois minutos finais são inesquecíveis!

No final da Meia Maratona Asics 2012, Hélio Galhardo e eu posamos com o maratonista Solonei Silva - atleta da Asics.

Abraço!
Bira.




(...) Encontrei tudo muito diferente no mundo da corrida. A atividade antes vista com estranheza virou moda. Os corredores já não eram chamados de "doentes mentais" e sim de "gente saudável" (...)

A série"Além do Blog" traz novas maneiras de contar as histórias já descritas aqui. Em "Meu País: Maratona", a emoção de superar os 42 quilômetro da grande prova... 

Além do Blog II - Meu País: Maratona

Amigos!

Esqueça tudo que você entende de corrida de rua hoje: Esqueça das suas camisetas e bermudas tecnológicas que não retêm suor. Esqueça dos seus tênis importados que se adaptam ao formato do pé. Esqueça do seu frequencímetro Garmin que localiza o satélite para medir o percurso. Esqueça até mesmo dos seus fones de ouvido. Esqueça, sobretudo, dessa grande quantidade de amigos corredores que treinam contigo...

Pronto, agora você está em 1985 e corre sozinho na beirada do asfalto. Seus tênis são feitos de lona azul e têm sola dura de borracha. Sua camiseta é branca de algodão. Ela vai ficar encharcada de suor, vergonha e raiva, quando alguém lhe chamar de maluco na rua...

Isso mesmo, em 1985 e só os "loucos" corriam, enquanto as "pessoas normais" davam longas tragadas em seus cigarros, imitando os atores de Hollywood e desportistas dos um comercias de TV (confira o vídeo). Existia apenas uma revista (a Viva) especializada em corrida e a internet, com seus sites e blogs sobre o tema, só explodiria entre 10 e 15 anos depois. Aqui no Rio, o jornalista pioneiro neste assunto foi José Inácio Werneck, no Jornal do Brasil. Foi na sua coluna que me inspirei para participar da minha primeira maratona: A Maratona do Rio'85. Sem ter nenhuma noção do que encontraria pela frente, comprei um belo par de tênis branco e me inscrevi para a grande prova, repleta de corredores da elite internacional.

Quando o sol começou a descer atrás dos prédios que margeiam a Praia do Leme era tarde-sábado de junho-85. Os acordes do Bolero de Ravel se elevaram sobre seis mil corredores espremidos e ansiosos no corredor de largada. Foi um tiro de canhão que provocou o estouro daquela manada. Meu choro, ali no meio, também não se conteve e tentou denunciar inutilmente a todos minha emoção. As largada e chegada daquela corrida foram momentos marcantes na minha vida. Para completar a prova, no entanto, intercalei entre correr e caminhar por longas de 5 horas e 28 minutos. Eu não tinha experiência nem feito um único treino para chegar ali. Entrei na maratona pela janela e acabei sendo fisgado: No ano seguinte voltei a fazer a Maratona do Rio além de São Paulo. Depois parei por nada menos que 22 anos!...


Comerciais, impensáveis nos dias de hoje, associavam cigarros ao esporte... Naquele contexto, "maluco" era quem passasse correndo na rua: "Ao Sucesso!..."


Voltei a correr em 2008 e em 2010 fiz a Maratona do Rio. Encontrei tudo muito diferente no mundo da corrida. A atividade antes vista com estranheza virou moda. Os corredores já não eram chamados de "doentes mentais" e sim de "gente saudável". Ignorei que já não tinha mais vinte e tantos anos, e vesti roupas coloridas, e ganhei identidade de atleta. O que não mudou foi o encanto e a felicidade que a prova desperta. Regularmente treinado, aos 50 anos, concluí a Maratona do Rio em 3 horas e 36 minutos. O choro na chegada não foi suficiente para dissipar minha emoção. Ao chegar em casa, entrei no Orkut - que ainda era usado na época - e escrevi o seguinte texto:

 A MARATONA É COMO A VIDA

A maratona é como a vida: Nos primeiros quilômetros, ainda no Recreio dos Bandeirantes, enquanto à nossa direita víamos violentas ondas se erguerem do mar, transformando aquele azul eterno na branca espuma que logo morre na areia, do outro lado da estrada onde corríamos, havia um o mato verde, calmo e fecundo, sob o manto do orvalho, num dos trechos esportivos mais belos do mundo. 

Recebíamos contra o peito fortes lufadas de vento e, mesmo neste momento supremo, eu consegui me preocupar... Tentei vislumbrar além da estrada o meu destino - O Aterro do Flamengo - e pensei: "É longe demais!... Não dá pra ver ou calcular, atrás de qual montanha distante e esbranquiçada está a linha de chegada..."

Tal qual ocorre na vida, não daria para assegurar o resultado. Era preciso, simplesmente, viver cada passada. E assim perceber que aquele vento frio, matinal de inverno à beira-mar não era o bastante para nos congelar, apenas refrigerava. Nosso sangue estava quente e expelia o calor e energia, e expulsava o suor. Se por um lado perdíamos sais minerais, por outro, nos desfazíamos de toxinas. Poderíamos recuperar os sais no próximo posto de hidratação, sorvendo um isotônico, mas as toxinas, que ficassem pelo caminho - pisoteadas no asfalto como copinhos de água mineral.

Sim! Nós maratonistas somos privilegiados pois colhemos ao longo de 42km de estrada os frutos do que plantamos no asfalto e que regamos com o próprio suor, dia a dia, treino a treino. Ao fim da maratona, passadas 2h50min, ou 3h25min, ou 4h20min... não importa o tempo de cada um, cruzamos a linha de chegada para descobrir que a felicidade sempre esteve ao nosso lado, pelo caminho. Ela esteve no olhar de um amigo - feito ali mesmo naquele trajeto - ou no sentir o vento, ou no pisar no asfalto, ou no ouvir o barulho do mar, ou...


A maratona é como a vida: Longa e desgastante para quem não percebe a brevidade da onda, que se desfaz na espuma, que se chama felicidade, que morre e renasce a todo instante #


Meu País: Maratona


Continuei a correr maratonas (42 km) em Porto Alegre, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Buenos Aires de novo. Depois andei lesionado e me limitei às corridas mais curtas, mas nada é como uma maratona!... Pensando melhor, a Maratona não é uma prova e sim um lugar. Um lugar que se desloca pelo mundo e abriga pessoas felizes, mesmo que estejam em sofrimento físico. A Maratona é minha terra! Quando eu digo "sou maratonista", refiro-me à minha nacionalidade. Meu país Maratona abriga pessoas das mais diversas raças, culturas e níveis sociais. Meu país Maratona me torna igual, lado a lado os com demais corredores, trocando forças pelo difícil trajeto. Lembro-me de quando completei a Maratona de Buenos Aires 2010 e não contive um forte choro, após cruzar a linha de chegada. Um argentino que veio logo atrás me amparou com um abraço de irmão, dizendo não menos emocionado que eu:

- Campeón... Eres un campeón!...

Desabei em soluços sobre seu ombro solidário e depois nunca mais o vi. Meu irmão argentino e eu somos maratonistas, habitantes de um mesmo país que tem 42.195 metros de emoção. ##

Abraço!
Bira.







(...) Raios solares avivaram o laranja que vestia os corredores... Três mil corações bateram no ritmo de música eletrônica... Foi dada a largada e eu estava correndo de novo! (...)


A série"Além do Blog" trará novas maneiras de contar as histórias já descritas aqui. Em "Nunca é Tarde", memórias de infância ocorridas concentração da Corrida Leblon - Leme têm destaque... 

Além do Blog I - Nunca é Tarde...

Amigos!

Para dizer a verdade, em pouquíssimas vezes eu tinha visto um sol recém-nascido no Leblon até aquela linda manhã de janeiro de 2008. Já com 48 anos de idade, eu estava voltando a participar de uma corrida de rua, nada menos do que 22 anos após minha última prova: a Maratona do Rio'86. E se a beleza matinal surpreendia, foi porque um carioca do subúrbio não vê a luz brotar detrás das ondas todo dia.

Cheguei cedo ao local de largada da Corrida Leblon-Leme, no finzinho da Avenida Delfim Moreira. Poucos corredores dispersos já estavam ali, próximo à subida da Avenida Niemeyer. Ainda sem ter amigos corredores, fui seduzido pela paisagem enquanto sozinho esperava o tempo passar. O hálito frio do mar escorreu sobre mim e eriçou os pelos de meus braços. Meus olhos se deitaram no horizonte e meu pensamento fluiu no tempo. Ele foi resgatar outros cenários da minha infância, querendo fazer comparações. Meu malicioso pensamento quis ressuscitar alegrias suburbanas, para me convencer de que a felicidade independe do cenário, por mais encantador que este seja...

Quando criança, meu passatempo, em Irajá, não poderia ser o surf, mas soltar pipa. Jogava bola de gude e chutava bola de meia. Subia nas árvores para comer cajá, goiaba e manga. Era uma infância muito boa, mas apartada dos bairros mais nobres da minha cidade. Quando alguém decidia ir à praia, pegava o ônibus 940 e descia em Ramos, no ponto final. Depois de atravessar a Avenida Brasil, deparava com a praia suburbana lotada - em época de águas bem menos poluídas. Nos anos seguintes, Ramos virou uma banheira de óleo e esgoto que o governo remediou construindo, ali, um piscinão. Há quatro décadas, não existia metrô para diminuir as distâncias ou internet para simular proximidade. O subúrbio, no entanto, parecia ter tudo para a felicidade de um menino que desce a ladeira em um carrinho de rolimã - muita liberdade e poucos riscos. Cabia na contagem dos dedos o número de "maconheiros" do bairro. Quando um guarda noturno passava soprando o apito, só assustava uns poucos ladrões de galinha, membros da única espécie de marginal do bairro. O tempo passou, eu e o bairro crescemos para o bem ou para o mal...

Caixas acústicas e a voz de Madonna me resgataram daquela viagem no tempo. Fiquei surpreso ao descobrir que faltava meia hora para a largada da corrida. Seriam oito quilômetros até o Leme e eu não me lembro, mas devo ter feito um breve aquecimento. Quase todos os três mil corredores inscritos já estavam ali, aferindo a todo instante a proximidade da largada. Raios solares avivaram o laranja que vestia os corredores... Três mil corações bateram no ritmo de música eletrônica... Foi dada a largada e eu estava correndo de novo!

A vantagem de começar a correr tardiamente é se ver em ascensão no momento em que o rendimento deveria estar caindo. No limiar dos 50 anos eu treinava ainda para saber até onde poderia chegar, o que é estimulante. Estabeleci como meta correr 10 km em 40 minutos e me dediquei em 2008 a quebrar essa marca. Com o ímpeto de um adolescente, corri várias provas naquela distância: Corrida de São Sebastião, Circuito das Estações, Nigth Run (na USP) e tantas outras. Fiz amigos na corrida e aprendi muito com eles. Meus tempos foram melhorando, mas o melhor que eu obtive nos 10 km foi 41:33 min. No ano seguinte abandonei a meta para fazer corridas mais longas, como a Meia-Maratona da Cidade 2009 (21 km, no tempo de 1:36:h que me encheu de orgulho, na época). Estabeleci um nova meta: correr maratonas a partir de 2010!...

...Mas isso é assunto para próximas postagens.

Continua em: "Além do Blog II - Meu País: Maratona"



Abraço!

Bira.
(...) Cambaleei por mais três ou quatro passadas tentando retomar o equilíbrio, mas não tive sucesso. Antes de beijar o chão, dobrei os joelhos e estendi os braços para amortecer o impacto... E, por fim, caí (...)

Imagem composta com recorte de outras imagens colhidas da internet - Bira, 03/14.

Um Tombo Inevitável

Amigos!

Foi tudo muito rápido; eu vinha correndo pelo gramado e pensei: "Vou cair!..." Imediatamente atentei às raízes que brotavam do chão, já que tinham árvores perto, mas foi em vão e eu tropecei assim mesmo. Cambaleei por mais três ou quatro passadas tentando retomar o equilíbrio, mas não tive sucesso. Antes de beijar o chão, dobrei os joelhos e estendi os braços para amortecer o impacto... E, por fim, caí.

Foi tudo em menos de dois segundos num raio de cinco metros: Um tombo inevitável, apesar de percebê-lo antes. Estatelado sobre a grama baixa e meio seca, demorei alguns instantes para reagir. Automaticamente, sem olhar, fiz um escaneando sensorial do corpo. Enquanto isso, meu coração bombeava com força um sangue vermelho de raiva que afogou minha mente. Outra enxurrada, de vergonha, devolveu cor ao meu rosto: "Ainda bem que ninguém viu!" - suspirei. Fiquei sentado para contabilizar os prejuízos físicos e deixar passar a sensação do choque. Mesmo rala, a grama amorteceu minha queda, poupou os joelhos e as palmas das mãos. Eu estava inteiro e com poucos arranhões. Recolhi o Smartphone que cambaleou bem mais que eu, sacudi a poeira e voltei a correr no gramado.

O suor que escorria de novo fez os joelhos ralados arderem. Quis esquecer que havia caído, mas não deu. Ressenti achando que poderia ter evitado, afinal eu antevi o tombo:

- Mas eu tentei evitar! - justifiquei para mim mesmo.

- Quem mandou se desviar do mendigo? - rebateu a minha Culpa.

Ops!... O mendigo não estava nesta história, mas a Culpa não é nada amiga e denunciou o fato, então vou ter que contar direito:

Era sábado, por volta das 11 horas. Eu estava feliz da vida, percorrendo o km 24 do meu treinão de 30, passando pelo Aterro. O asfalto não estava liberado ao lazer e eu corria na grama. Eu ia bem, até surgir uma árvore à frente. Se eu cortasse por dentro, teria que cruzar ao lado de um mendigo deitado na sombra (em princípio, parecia ser um mendigo - não tenho certeza já que eu estava correndo), então escolhi desviar para a direita. De imediato, veio a certeza que eu levaria o tombo que tentei inutilmente de evitar.

 Agora vou responder à Culpa:

- Tenho quase certeza que se eu passasse próximo ao mendigo, não cairia. No entanto, eu já tive tombos muito piores sem estar me desviando de nada (ano passado eu tropecei na grama e caí feio sobre a calçada de pedras portuguesas). Desta vez saí no lucro: Ganhei pequenos arranhões que só incomodaram por dois dias; ganhei essa crônica para ilustrar o blog; e ainda tenho a oportunidade de mandar você (Culpa), publicamente, para a puta que pariu!

Abraços!
Bira.
Amigos!

Gif animado, com sequência de ilustrações feitas no Paint - Bira, 03/14.
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Em conversa com outros amigos, ontem à noite, um deles começou a falar de maturidade emocional, e disse:

- Antigamente eu só queria o lado bom das coisas, depois vi que não dava... Tudo na vida tem um lado ruim que é impossível de ser eliminado...

Aquelas palavras provocaram, de imediato, um insight. Um sorriso de gratidão e discordância brotou na minha face:

- Sim!... - repare que para não suscitar polêmica, discordei com um "sim" - É possível eliminar o lado ruim das coisas!... Aliás, a gente vem fazendo isso constantemente e muitas vezes nem se dá conta!...

Meu amigo não ficou irritado, mas curioso. Como ele poderia se irritar com alguém que lhe transmite a discordância num sorriso de gratidão? E começou a observar atento a minha explanação:

- É simples... - falei simulando um desenho imaginário na mesa - Veja aqui os dois lados: Quando você elimina o lado ruim de alguma coisa, tal qual uma mitose, o lado bom se divide em dois... Inebriado pelo encanto da mudança, você demorará a perceber que há de novo um lado bom e outro ruim. Muito embora eles estejam em um nível mais elevado, não deixam de ser bom e ruim (!)...

Meu amigo não dizia nada. Não sei se entendeu de fato o argumento. O mais importante, no entanto, é que EU estava entendendo os pensamentos que me chegavam. Era como se eu tivesse encontrado um novo ângulo de fotografar uma cena, revelando detalhes ocultos. Imediatamente pensei nessa onda de protestos, quebra-quebras e reivindicações, que fundiram a minha cabeça nos últimos tempos, apesar do país ter superado uma crise mundial... A lógica, neste fato, também se aplica: a ditadura foi eliminada e o povo melhorou de vida, mas isso se dividiu em novas reivindicações.

Para sair desse campo minado da política, eu apresentei a meu amigo um outro exemplo simples e pessoal: Quando em 2.012 eu terminei de pagar a minha casa, a muito custo, deparei com a urgência de fazer várias reformas caríssimas, pois o imóvel é grande. Sendo assim, eu havia eliminado o LADO RUIM (de não ter casa), mas o LADO BOM (de ter casa) se dividiu, dando luz a novo LADO RUIM: (de ter de fazer reformas caras e urgentes).

Ressaltei ao meu amigo que perceber as coisas dessa forma me deixa motivado: um lado ruim continua presente, porém em um nível mais elevado - sinal de progresso. Sua presença valoriza que há de bom!...

Mas esse texto não encerra aqui: Existe a progressão feita ao contrário, vejamos:

QUANDO O LADO BOM É ELIMINADO E O RUIM SE DIVIDE

Quando o metrô permaneceu parado na linha 2, esta semana, várias pessoas se irritaram no vagão. Não era para menos - muito chegariam atrasados no trabalho, inclusive eu. Consultei o relógio três vezes, a cada cinco minutos. Na quarta consulta, desisti de permanecer irritado. Pus os fones de ouvido, mas não consegui me concentrar na música, até que veio um pensamento, que imediatamente postei no Facebook:

"O lado bom de ficar dentro metrô parado na linha 2 é pensar que poderia ser pior, estando dentro de um túnel na linha 1"...

Ao pensar assim eu sorri. Dividi o que havia de ruim e relaxei na sua parte boa...

Ninguém em sã consciência deseja livrar do bom e ficar com o ruim, quando isso acontece é involuntário. Acidentes, tragédias ou simples contratempos provocam mudanças profundas na consciência de quem os supera. Novos conceitos de felicidade são resgatados, feito criança, nos escombros de um prédio desabado. Semi-devastado pelo ataque nuclear, o Japão que ressurgiu pacífico, tornou-se potência mundial. Há milhares, talvez milhões de exemplos individuais de superação descritos em sites, igrejas, livros de auto-ajuda e até mesmo ao pé do ouvido de quem precisa de incentivo.

O FOGO E A ÁGUA

"Fogo de morro acima e água de morro abaixo, ninguém segura" é um provérbio que descreve a força que usamos na eliminação dos problemas, mas também a enxurrada que destrói patrimônios. Vivemos, hora sob efeito da emoção que cega quem emerge, hora sob efeito da emoção que aprofunda a depressão de quem perdeu. Emergir ou submergir, perder ou ganhar, no entanto, é o resultado de um julgamento mutante aos olhos do tempo.

Abraço!
Bira.