Para que morte lhe liberte desse mundo, primeiro é preciso acreditar que o tem nas mãos...
Quem é você que me sussurra? O que quer que eu faça? - perguntou Aline em pensamento.
Palavras sussurradas são como pérolas sorrateiras - respondeu o
sussurrante - Se essa gente faminta optou por agir como porcos, que
valor dariam às pérolas?
Oito
meses passaram reduzindo o tamanho do oásis a 100 m2. A lagoa resistia,
mas ficou com apenas de 3 metros de diâmetro. A fome, no entanto,
aumentou, obrigando os 11 homens a cavalgarem cada vez para mais longe.
Iam às buscas de algum alimento, mesmo que vencido. A água da lagoa
perdera a qualidade e só era bebida em último caso. Durante meses, a
alimentação precária não deixou que fosse notada a gravidez de Aline,
nem por ela mesma. Perto de parir, no entanto, sua barriga ficou
indisfarçável. A mulher que engravidou no estupro iria parir na
desolação. Aflita, nunca mais ouviu sussurros e juntamente com os
"porcos", só conhecia uma regra de
sobrevivência: repassar as parcas migalhas ou ver a comida sumir. Num
repentino acesso de raiva, jogou uma pedra no espelho da lagoa e
percebeu que as ondas circulares provocadas pelo choque, estranhamente
tomaram a direção contrária. Elas seguiram das bordas para o centro da
lagoa. Estranhou o fato, mas banalizou o susto pensando: "Deve ser é
mais um desses fenômenos mágicos que vêm ocorrendo..." Logo, a gestante
assustou-se de verdade ao perceber que pedra parecia ter aberto um furo
no fundo da lagoa. Lentamente, toda a água começou a escorrer para ali,
feito o ralo destampado de uma pia.
Quando amanheceu no
sexto dia do oitavo mês, restavam apenas capim e árvores secas no oásis
moribundo. A lagoa secou e se transformou em um poço, cavado com muito
sacrifício pelos homens magros e sem vigor. Dali saía a água para os
animais que também emagreceram. Naquele dia, pouquíssimo alimento foi
encontrado e dividido no fim da tarde. Todos comeram sem nada dizer. Mas
uma vez eles negavam seus sentimentos para não chorar e resistir
naquele contexto.
Na manhã seguinte, ninguém teve força
para procurar comida. Permaneceram escorados nas árvores secas,
totalmente cansados. Eles queriam secar feito as árvores, mas essa
mágica não lhes foi concedida. Foi então que os seus olhares secos
perceberam no céu uma faixa de azul surgindo por detrás da última
montanha. Saídos de trás de um morro próximo, surgiram oito cavalheiros
imponentes que atiravam algo sobre o solo. Alaor e Aline gritaram por
socorro com a pouca voz que possuíam. Viram, aliviados, que dois dos
cavaleiros vieram em sua direção. Mas os homens não pararam para
socorrê-los. Eles apenas atiraram pérolas que ao tocar no solo se
multiplicavam e se espalhavam em todo entorno. Pelo chão seco do vale se
espalhavam as pérolas e ninguém do extinto oásis entendeu o que
ocorria.
– Água!... Comida!... - gritavam, enquanto os cavaleiros apressados se afastavam.
– Malditos nos trazem pérolas, quando estamos com fome e mortos de sede! - espraguejou o velho bebum.
Aline
percebeu o reflexo das pérolas sobre o solo seco. A cintilância se
estendia até onde sua vista alcançava. Justamente naquele momento, Aline
sentiu as contrações do parto. Pediu ajuda. Um desastrado Alaor
esqueceu de suas próprias debilidades e foi ampará-la. Enquanto o neném
nascia, Aline não saberia dizer o que doía mais: o corpo no parto ou a
alma de quem pari na desolação. O choro forte fez com que todos
esquecessem de seus flagelos e se aproximassem para ver o bebê.
– É uma menina! - Alaor falou, enfim sorrindo, depois de muito tempo.
– Como vai se chamar?
– Pérola! - disse o velho Chico, abaixando para colher uma e entregando à Aline que em silencio aprovou.
Com
cuidado, Alaor acomodou Pérola sobre o peito de sua mãe. Acalentada
pelo calor de Aline, Pérola parou de chorar. Então foi a vez de Aline
libertar todas as lágrimas aprisionadas nos últimos oito meses. Ao seu
redor todos choraram: Alaor, Chico e os jogadores do Acesita. Alguns que
àquela altura pensavam nem ter forças para respirar direito, choraram
feito crianças. Eles estavam redescobrindo a emoção e resolveram vivê-la
pelo resto de tempo que tivessem de vida. Foi quando o choro daquela
gente se espalhou incrivelmente pelo chão, multiplicando-se e formando
ondas rasteiras que se banharam todo vale. Feito água de chuva, o choro
envolveu as pérolas espalhadas e delas brotaram e cresceram, em
segundos, belíssimas árvores reflorestando Timóteo. Outras pérolas deram
à luz animais, recompondo o paraíso natural do interior mineiro. A
pequena faixa de azul no céu se ampliava em direção ao seu centro onde
surgiaram chumaços de nuvens.
Os 11 homens estupefatos,
ainda estavam debilitados pela fome e sofrimento. Mais uma vez eles
tentavam entender o que presenciavam. Dessa vez, no entanto, não era
tragédia o que viam. Onde a lagoa secou, voltou a correr o rio e, para
amainar a fome, surgiram ameixeiras carregadas de frutos. Imediatamente
os homens famintos colheram as ameixas e, como já sabiam, trataram de
compartilhá-las primeiro. Desta feita, no entanto, não fizeram isso
apenas pelo medo do alimento sumir. Fizeram com o sentimento resgatado
no choro. Ofereceram os primeiros frutos para a Aline e depois se
sentaram para uma refeição coletiva.
Algo surpreendente
ainda estava por ocorrer: ao provarem as belas ameixas doces e
robustas, os homens também ficaram robustos, restabelecendo-se
milagrosamente. O próprio Chico voltou a se sentir como no tempo de
jovem que não bebia, tocando em si mesmo para acreditar. Perceberam,
surpresos, que dentro das ameixas não havia caroços e sim, pérolas. As
mesmas que quando atiradas se multiplicavam e se espalhavam pelo chão.
Lembraram-se dos cavaleiros atiradores de pérolas.
Revigorada,
Aline amamentava a sua Pérola. Pensou que ouviria novos sussurros, mas
não era mais preciso: Aqueles homens já não eram mais porcos famintos e
entendiam o que deviam fazer. Bastou que um olhasse para o outro e que
todos olhassem para o céu. Foi quando Mário, o capitão do time de
futebol do Acesita enfim mostrou sua liderança, antes adormecida:
–
Alaor e Chico, nós só temos seis cavalos então vocês não precisam ir...
Fiquem aqui com Aline e Pérola que vão precisar de vocês. Eu escolherei
mais cinco dos meus e nós vamos fazer o que fizeram conosco: semearemos
estas pérolas onde houver destruição.
Mário apontou na
direção onde o céu permanecia alaranjado e ordenou a seus homens que
recolhessem todas as pérolas e alimentasse com ameixa os cavalos que
logo ficaram robustos. Os novos cavaleiros atiradores de pérola
atravessariam o vale, agora verde, em direção ao próximo deserto de
barro. Semeariam pérolas nos solos que secaram, parodiando a face dos
homens que viraram porcos famintos. Pérolas, lágrimas suprimidas por
quem se isenta do sentimento.
No próximo deserto estariam outros homens que por conter o choro se tornaram porcos pisoteando pérolas e sentindo fome.
Pérolas-sementes que, pacientes, aguardariam no chão pela rega de um novo choro.
Choro que cedo ou tarde virá, derretendo a máscara de suíno do homem.
Homem que tem medo de admitir o medo, mas que diante do fim irá chorar e reconstruir o mundo.
* * *
Quando
acordou na manhã seguinte Aline não tinha mais casa, celular, pai ou
noivo. Ao seu lado, na cabana improvisada estava Pérola, a primeira
nativa de uma terra renascida.
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Bira.