sábado, 24 de maio de 2014

Além do Blog VI - Sanduíche Versão II




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De que adianta um pelotão matinal de garis, armado de vassouras, enxadas, caminhões e tratores, combater o lixo no meu bairro? À noite, quando eu retorno do trabalho, sinto-me um verdadeiro rato bípede, abrindo caminho em meio ao lixo e ao caos... Foi essa triste rotina que inspirou o conto "Sanduíche de Queijo", onde todo lixo do Rio de Janeiro se transformou em dinheiro, num passe de mágica... Agora refiz o conto em formato e estilo, para postá-lo aqui na tag "Além do Blog"... Acho que ficou melhor no texto e nas imagens, confira:

Amigos!

Sanduíche de Queijo



Avenida Rio Branco, Centro do Rio - Segunda-feira, 21h.

As mulheres de salto alto redobravam a atenção para caminhar durante a noite. As pedras portuguesas das calçadas cariocas não eram seus piores obstáculos, e sim, os pedaços de isopor que escapavam dos sacos de lixo. Empilhado à beira do asfalto, o lixo aguardava a passagem do caminhão da COMLURB. Até que isso ocorresse, o Centro da Cidade seria como um museu com esculturas horríveis, feitas de plástico preto recheado de chorume, espalhadas pelas ruas e becos.

Os garimpeiros de material reciclável têm pouco tempo para catar tanto lixo. Eles também se espalhavam feito almas urbanas nas sombras noturnas de árvores e marquises. Essas criaturas são invisíveis na camuflagem da noite e no embotamento dos olhos de quem tem pressa. Por isso, ninguém percebeu quando um deles passou à margem da calçada, em disparada, carregando três sacos pretos, imensos e estufados. O homem ofegava e suava, arregalando olhos que mais pareciam faróis. Rapidamente olhava para os lados, como quem confere se não está sendo seguido. Não estava, mas a sensação de perseguição era tão forte quanto o latejar de seu coração naquele momento. Correndo em direção à Cinelândia, teve seu vulto engolido pelas sombras da noite. Percebeu-se, então, um surpreendente rastro de cédulas de R$ 50,00 por onde ele passou, imediatamente disputadas pelos transeuntes.

Rapidamente uma confusão se formou. Pessoas se abaixavam para catar dinheiro no asfalto. Carros frearam e buzinaram tentando abrir caminho. Quando um motorista percebeu o que ocorria, abandonou seu automóvel para disputar o dinheiro também. Foi imitado por outros motoristas e o trânsito travou por completo. 

Mais um catador passou, arrastando dois sacos imensos e rápidos, e sequer se ateve à disputa. Um terceiro também surgiu do mesmo jeito. Daria para ver as cédulas de R$ 50,00 escapando do plástico preto que conduzia. Debruçados no chão ninguém percebia. Com exceção de um taxista, que acabara de deixar seu carro atravessado na pista. Seus pensamentos foram rápidos e seus gestos furtivos: aproximou-se de um amontoado de lixo ensacado e confirmou sua suspeita - os sacos estavam abarrotados de dinheiro ao invés de lixo! Trêmulo, abarrotou rapidamente seu carro do quanto pôde, e só depois gritou para que todos ouvissem:

-- Os sacos de lixo estão cheios de dinheiro!!!

Seu grito ganhou eco pelas ruas do Centro. Fez passageiros e motoristas descerem dos coletivos , balconistas e porteiros abandonarem  seus postos. Um guarda de trânsito largou o apito e um usuário de crack, seu pito. Cada um tratando de carregar o que podia. Por alguns instantes tiveram medo de serem roubados, mas havia dinheiro suficiente para todos em todo canto. De repente, becos fétidos e escuros que acumulavam lixo se transformaram em tesouros. 

Seguranças particulares, armados, se organizaram para fechar um trecho da Rua Sete de Setembro, onde se apossaram das pilhas de sacos de dinheiro que antes foi lixo. Jorjão assumiu a liderança da milícia e tentava, em vão, comunicar-se pelo celular com seu vizinho Ferreira, dono de um caminhão baú que recolheria toda a grana. Ferreira não atendia de jeito nenhum, e ele ligou para a sua mulher:

-- Mulher, me localiza o Ferreira aí, é urgente! Manda ele vir para o Centro, que eu tenho uma carga preciosa!... Diz para ele me ligar, eu não consigo falar com ele! Vá logo, é urgente!...

-- Amor, eu também tava tentando falar contigo!...  - respondeu a mulher - Você não vai acreditar, mas no lixão aqui do morro, não tem mais lixo, só tem dinheiro!... Estava todo mundo pegando a grana e levando pra casa, até que os bandidos tomaram conta e cercaram tudo... Eu fui lá com os meninos e sua mãe, antes. Deu tempo de pegar muito dinheiro!... É dinheiro como eu nunca vi!... Vem pra cá! Estamos com medo... Precisamos de você aqui!...

-- Como é o negócio?... Aí também?... Mulher, mulher!... Droga, desligou!...

Nem Jorjão e sua tropa de milicianos no Centro, nem os traficantes que cercaram o lixão do morro, nem nenhum cidadão carioca poderia imaginar que, naquele momento, todo o lixo espalhado no Rio de Janeiro se transformou em dinheiro vivo!...



Depois das 22 horas...

A cada minuto que passava, mais e mais pessoas davam conta do ocorrido. Havia dinheiro por toda cidade. Quanto mais pobre o bairro, mais fortuna espalhada nos lixões. Bastaria recolher e levar para casa. A pirâmide social estava invertida. 

Naquela noite ninguém dormiu. Ninguém teve fome nem sede até que o dia amanhecer. Quando o sol chegou, toda a cidade estava limpa e bela. As ruas estavam desertas e as pessoas reclusas no lar, guardando suas fortunas. Se o lixo virou dinheiro, desapareceu das ruas. Se as pessoas tinham dinheiro, não precisariam trabalhar. Se ninguém foi trabalhar, não tinha comércio, escola, trânsito ou hospital. Cada um de olho no que recolheu e sem saber direito o que estaria funcionando além do seu muro.

Antônio foi um dos poucos que permaneceu recolhendo o resto de dinheiro em uma encosta no seu bairro. Mara, sua esposa, foi chamá-lo:

-- Vem pra casa Tonho! Já temos muito dinheiro lá! Você precisa descansar e comer alguma coisa!

-- Ainda tem dinheiro aqui também! Vou pegar o máximo que puder antes que acabe.

-- Então coma pelo menos este sanduíche de queijo que eu fiz...

E assim Antônio prosseguiu catando dinheiro com uma mão e comendo sanduíche de queijo com outra. 


Em alguma residência do subúrbio carioca... 
Terça-feira, 21 horas.

Janete não estava preocupada com a proporção do caos que tomaria a cidade. Algo lhe dizia que logo, logo, ficaria tudo bem. A água parou de chegar na bica, mas sua caixa estava cheia e tinha capacidade para 2.000 litros. Se faltasse luz, acenderia velas, mas para que antecipar os problemas? Ainda tinha luz e novela pra assistir. Então chamou o marido e acomodaram-se no sofá com o filho. Calada, diante da TV, assistiu seus próprios sonhos. O que fazer com tanto dinheiro recolhido?

Logo um mau cheiro foi tomando conta da casa. Levantou-se para verificar se o banheiro estava sujo. Não estava, mas o mau cheiro vinha dali.

-- Estranho!... Que mau cheiro é esse? - pensou.

Tudo parecia normal no banheiro, a não ser pelos sacos de dinheiro ali empilhados... A dona de casa então abriu um dos sacos e quase caiu para trás. O dinheiro voltou a ser lixo!... Apressou-se para conferir outro saco, e outro, e outro... Sua casa estava cheia de lixo e seus sonhos esvaziados! Gritou pelo marido. Ordenou que ele abrisse a porta, as janelas, o portão e pusesse o lixo para fora! Atirou-se no sofá, diante da TV, chorando mais que a mocinha da novela.

'Na história televisiva, a mocinha sofria com a indiferença do marido que só pensava em trabalhar para ganhar mais e mais dinheiro. O homem era avarento e não parava nem para almoçar. Ao invés disso, todo dia comia um sanduíche de queijo para enganar o estômago.'

Amparada pelo filho, Janete chorava de um lado e a mocinha da novela chorava de outro. Entre elas a película da tela plana de plasma. Enquanto isso, as ruas do Rio se enchiam de novo de lixo...



Rio de Janeiro - RJ - Quarta-feira, de manhã...

Supermercados, farmácias, shoppings e o bicheiro da esquina voltaram a funcionar. Camelôs, transeuntes e automóveis dividiam espaço com pilhas de sacos de lixo, até a COMLURB passar...

Um ônibus soltou um longo guincho ao parar no ponto, em frente ao Edifício Avenida Central. Veio arrastando uma lufada de vento que fez folhas de árvore ou papel alçarem voos, atirando-se sobre quem passava. Pragas e palavrões foram ouvidas naquela manhã de ressaca.

Jorjão e os demais seguranças já haviam deixado a Rua 7 de Setembro. Ele já sabia que na favela o dinheiro  também voltou a ser lixo e retornou para o despejo. O celular tocou, era o Ferreira:

-- Diz aí, Jorjão!... Vi no visor do celular que você me ligou... O que manda?

-- Nada não Ferreira... Foi apenas engano.

Ao desligar o celular, o segurança sentiu fome. Lembrou que tinha um sanduíche de queijo na mochila, preparado com carinho por sua mulher. Já fazia um bom tempo que o sanduíche estava ali, mas sequer foi tocado. Desembrulhou-o , cheirou e percebeu que ele estava estragado. Disse um palavrão e jogou o sanduíche no chão, ali mesmo, junto ao meio-fio e perto de um ralo. Cinco minutos depois, um vira-lata passou e cheirou o alimento. Faminto,o animal ainda exitou um pouco, mas não resistiu. Quando ia desferir a mordida, no entanto, se ateve: o sanduíche se transformou em uma nota de R$ 20,00!... #


Nota: "Além do Blog" é um desafio de criar novas versões para postagens antigas. Quem quiser conferir a versão original deste conto, clique a seguir em: Sanduíche de Queijo.




Abraços!
Bira.

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